sexta-feira, 24 de março de 2017

BERLINDES






Eram berlindes e guelas, os primeiros mais pequenos, os outros, mais vistosos, abafavam os berlindes. Eram de vidro cheios de cor, muitas, com padrões que davam ao girar a sensação de movimento encantatório.

Compravam-se nas papelarias de bairro, pequenas superfícies habitualmente familiares que vendiam de tudo de uma forma absolutamente eficaz e personalizada. Estabelecimentos, não superfícies, designações de um presente deselegante, um nome que soa estranho e é frio.

Os proprietários e os empregados sabiam os nossos nomes. Podíamos levar e pagar depois, numa contabilidade honesta que se fazia no livro dos devedores, preenchido a lápis de carvão. Este calhamaço era uma história do negócio, onde se desfiavam listas de nomes e produtos e datas. Raramente era usado para lembrar os atrasos: ninguém queria estragar relações de boa vizinhança, num tempo em que a honra e a honestidade eram valores não transacionáveis.

Uns buracos no chão com uma distância entre si, medida em palmos de mãos de gaiatos, o jogo do berlinde. Acertar nas covas e seguir em frente, afastar os berlindes inimigos e guelas oponentes. Jogava-se de cócoras.
Como em quase tudo era um exercício de poder em que vencia o mais habilidoso, o mais treinado, o mais concentrado.

Era a admiração, quase reverência com que os miúdos brindavam os vencedores. Havia-os bons e sofríveis, jogadores, e observadores que não tinham sequer assento nos campeonatos, ou por serem demasiado jovens, ou por serem uns nabos, o que também mimetiza o mundo.

Esta distração competia em popularidade com as corridas de caricas nos bordos dos passeios, os jogos de futebol de caricas com as caras dos jogadores da época e as corridas de carrinhos miniatura, lubrificados com umas gotitas de azeite para deslizaram melhor sobre o calcário.

Estas brincadeiras eram de paciência e baixo consumo de energia. As de alto-rendimento eram a bola, os carrinhos de esferas, as bicicletas. Representavam-se todas na rua, o grande espaço sem limites, a ausência de fronteira, a liberdade.

As meninas jogavam outros jogos com mais poesia e delicadeza. Os rapazes mesmo que muito concentrados e entretidos já gostavam delas, mas não sabiam como fazer. Nada havia ainda a fazer, senão olhar de raspão e imaginar, deixar correr os sonhos e fazer encenações mentais de beijos fugidios.


Era assim.


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