quinta-feira, 16 de março de 2017

AS SOMBRAS





É a época em que os homens se perderam da sua sombra.

Rareia a luz que projecta a silhueta preta dos corpos na calçada branca. Orfãos de sombra os homens defrontam o mundo sozinhos e assustam-se.

Algures alguém da condição humana, de querer fazer uma escolha, má, capturou a luz, fez a pior das escolhas.

Não foi ingénua essa decisão.

Pouco se pode fazer agora, a luta afigura-se desgastante e vã. No epicentro da indecisão, nas opções naturais e outras inconcebíveis mas que são opções, entre o estar quieto e dar sinais de vida, e enquanto ainda assim se luta porque é cobardia desistir no que se acredita, a poesia ajuda.

A poesia não é ingénua, nem as artes, nem os engenhos do homem.
É criação e liberdade, e mesmo que o corpo esteja preso, a boca cosida e muda, as mãos algemadas e sem movimento, a arte não se deixa capturar, foge por entre as mãos dos carrascos que asfixiam o vazio e desesperam e urram, brutos, porque por muitos corpos que capturem nunca conseguem agarrar o essencial.

Por vezes é preciso um sofrimento insuportável para voltar a haver luz. Mas nascerá um dia de personalidade vincada, decidido a abrir as portas e as janelas e a escancarar essa ofuscante energia fundamental à vida.

No calendário desse dia, os homens vão recuperar a sombra e completam-se de novo como homens.

Até lá, continue-se a ler poesia, na intimidade ou em voz alta, que eles não entendem o como nos enchem esses intervalos de sonhos e levezas.


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