sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

ADEUS ANO VELHO, VIVA O ANO NOVO!






Aproxima-se o final do ano, só faltam dois dias, e é um grande alívio, ou uma grande pena, ou ambos, ou nenhum dos dois. Uma indiferença.

Uns dizem que foi saboroso, outros que foi escasso, outros que triste, muito triste, tão triste quando pessoas e seres que não deviam morreram. Outros deviam e aconteceu-lhes.
Há muitas pessoas vivas e algumas são mesquinhas, demoníacas, doentias. Há também gente boa, e santos.

Nasceram igualmente, a incomparável felicidade do primeiro beijo. A renovação aconteceu, mas somos de mais. Aqui cada vez mais poucos, e velhos.

O mundo não melhorou nem piorou, continua indiferente, as pessoas é que o antropomorfizam, e depois vem dizer que ele está mais injusto, mais inseguro, mais tirano, mas chato.
O mundo está muito mais chato.

Os homens apesar de serem uns queixinhas e porem as culpas nos outros, têm o infeliz mau-hálito de darem cabo do que os rodeia e estão num processo desenfreado de auto-destruição massiva. Há quem não acredite e seja optimista. Os optimistas são em geral boas pessoas, mas estão sempre a rir, o que se torna ligeiramente irritante.

Fora os optimistas, existem pessimistas, os apáticos e os estúpidos.

O mundo tem uma enorme quantidade de estúpidos que estão a ficar igualmente apáticos, o que é bom para os políticos em geral, quase todos de fígados azedos, e obcecados pelo poder, um bem-mal intangível que dá muito jeito, para passar à frente de todos em todas as filas e engarrafamentos.

O dinheiro é vil, mas todos gostam dele.

Entre os pessimistas e os optimistas, existem meia-dúzia de lúcidos, a quem ninguém ouve. Eles mesmo, depois de tanto pregarem para o ar, já começam a desconfiar da sua lucidez. É bem possível que em breve venham a melancolizar.

Como o ano está para acabar em dois dias, todos os grupos descritos de pessoas, estão num frenesim para entrar no novo. Fazem compras no supermercado com esse objectivo teimoso, de celebrarem e empanturrarem-se de vivas e urras e muitos olés e palmas e beijos besuntados com abraços fraternos e outros malandros, se calha uma desconhecida jeitosa, ou jeitoso, na festa que se está a frequentar.

Há quem não tenha nada disso e apesar de ser gente – e da boa – esteja num sofrimento atroz de todas as espécies e feitios.

Esquecimento, abandono, mau trato, tragédia. Mas falar disso não fica bem, volte-se às comemorações com cartola, se for caso disso, ou foguetório, não se olhe a despesa.

A felicidade, no fim do ano, no preciso momento da passagem do um para o zero, fica muito barata. A partir daí inflaciona.

Um ano novo depois das passas e do espumante, traz esperanças, sonhos e expectativa de grandes realizações. Vai acabar igual ao que passou, está quase a passar. Sempre assim.

Viva 2017 que foi tão, tão, tão! Viva 2018 que vai ser tão, tão, tão de previsibilidade imprevisível.

Pessoalmente os meus doze desejos, revelo-os:

1 – que Trump seja internado num hospital psiquiátrico de alta segurança

2 – que o Quim (ou Kim) da Coreia, seja internado num hospital psiquiátrico de alta segurança

3 – que o Putin seja preso numa ala de pedófilos e tarados do sexo

4 – que os políticos em geral e em particular em Portugal, lhes abata a doença da honestidade, e passem todo o ano a chorar compulsivamente pelas vilanias e maldades que fazem às pessoas ingénuas deste país

5 – se houver algum absolutamente impoluto, pode atirar uma pedra

6 – que os profissionais da corporação justiça, lhes abata a doença da humildade, e se ciliciem do pecado do uso arbitrário e dIscricionário dos poderes.

7 – que o futebol pague IVA a 150% e que as mais-valias das transferências dos jogadores entrem para o fundo de pensões das pessoas que trabalham toda a vida e não sabem se vão ter reforma

8 -  o Ronaldo não é o melhor jogador de futebol do mundo, é dos melhores, e que pare de dizer isso e os pasquins não estejam sempre a replicar essa preciosidade linguística com sotaque da Madeira.

9 – que os meios de comunicação passem a produzir notícias e não crochés de informação-contrainformação panfletária-propagandística encomendada.

10 – que a ANPC e os bombeiros se entendam e sejam eles mesmos a organizarem as suas estruturas e estratégias e modos de acção e operação. Que tenham todos um curso superior certificado.

11 – que eu tenha muita saúde e os meus também. Aos outros desejo o mesmo eu não sou de rancores.


12 – que eu tenha muito dinheirinho, tanto tanto, que possa mandar tudo às ortigas e estabelecer-me e aos meus numa ilha de papo para o ar. Para os outros também menos os políticos, os neo-liberais, os populistas, os evangélicos desonestos, os cristãos desonestos, os muçulmanos desonestos ( não conheço nenhum budista desonesto) e todos os que não forem desonestos nem estúpidos.

domingo, 24 de dezembro de 2017

CEIA DE NATAL





O apartamento, extensíssimo, talvez sobrecarregado de mobiliário e outros objectos, era um velório, não de defunto, mas de muitas velas iluminadas. O motivo de toda a exuberante iluminária, era um bom motivo: uma comemoração, um júbilo, Deo gratias. Nascia o menino, nasceu, há muitos, muitos anos passados. A comemoração do acontecimento, um ritual, uma alegria, o momento mais alto do ano dos encontros familiares, os sinos das igrejas a chamarem à comunhão, o amor a derreter-se nas pessoas, a comemoração com os amigos, as saudações e votos aos conhecidos, inimigos temporariamente em tréguas, conseguidas com a ajuda das fumigações de compaixão, o respirar profundo. Um sentimento nobre. Mais, uma missão na vida, que toca aos seres superiores,  comiserarem pelos desvalidos.

As velas de pura parafina, a exalarem um quase impercepptível olor a sebo, mas eram de parafina pura, era-lhes permitido exalarem o que lhe apetecesse, faróis acessos intermitentes no alto de castiçais de prata repuxada a brilhos ofuscantes. Criam no ambiente projecções nos espaços de parede não preenchidos por quadros de artistas consagrados. Ao mesmo tempo, transmitem paz, num piscar  chamas ténues, amareladas, quentes . Parece uma casa cheia de gente, de sombras nas paredes, afinal vazia.

Num tempo inimaginado de alguma vez ter sido possível, a olhos de quem agora vê, as serviçais – velhas mulheres inférteis, que nunca foram meninas de brincar – obedecendo cegamente as ordens rigorosas, atentas, liderança guiada, da senhora, conseguiram esse milagre: o dos castiçais ofuscantes.

Havia silêncio em toda a casa. Numa comemoração jubilosa não há silêncio, mas sendo um apartamento extensíssimo com velas da mais pura parafina, e serviçais bem conduzidas o silêncio não faz espécie.

Os preparativos para a festa. Começaram uma semana antes e agora, tudo pronto para a ceia de natal. Uma azáfama, um nervo, uma tensão, elas a serem levadas aos limites – aceitam todos os limites – a senhora, raladíssima, uma perfecionista ainda mais naquela noite tão especial,do nascimento do deus-menino, vindo à terra  anunciar a culpa e a descupa dos pecados dos homens.

O que dizer da mesa se já se indiciou ser uma casa que não olha a despesa para apresentar o melhor de si, dos seus donos, a noite é única, todos os anos única, no universo dos homens desencontrados de si e dos seus irmãos, nasceu o homem redentor.

Estão os dois sentados, os dois doutores, assim tratados em reverência pela criadagem. Obviamente, ele afastou-lhe o cadeirão e cumpriu o protocolo de a sentar na mesa onde vai acontecer uma ceia que é jantar. De uma forma tão natural, que se percebe ser um gesto muito antigo, de gerações anteriores. Códigos rígidos mais do que ensaiados. Os preceitos de etiqueta dos homens, os das mulheres, cada género com os seus. A seguir sentou-se ele, direitíssimo, no seu cadeirão, no lado oposto da mesa opulenta e irrepreensível.

encadeados de se verem cristalinamente - houvesse vontade no olhar -  por um centro de mesa, com flores “rosa-chá”, e dois castiçais também com velas de parafina. Há uma sintonia milimétrica de todos os objectos, componentes do serviço: garfos e facas de um e de outro, copos, guardanapos, num alinhamento e paralelismo que parece a projeção igualíssima do reflexo de um espelho.

Eles não disseram nada, nem se olharam, vão dar inicio oficial à consoada.

«Justina», friamente disse-o ela mantendo na forma como o disse, a compostura formal exigida pela distância que se tem com os que nos servem.

Ele levantou-se de novo e serviu-lhe uma flute de champanhe, com uma precisão, um vagar, a dar tempo a verter para a flute, contando-as todas, borbulha a borbulha, uma a uma as que borbulharam depois elegantemente nos recéptaculos de cristal da Boémia, que já não se encontra.

A Justina não atendeu imediato ao chamamento.

Levantaram os copos, sinalizaram um brinde à distância de uma mesa a separá-los, degustaram o maravilhoso líquido, e não deram indícios de se virem a manifestar sobre o tema. O tema de ser muito bom e caríssimo, e reunidas essas duas condições, ser expectável uma manifestação ligeiramente mais exuberante de prazer do que um simples nada. Não aconteceu.

Justina entra na sala de jantar acompanhada por uma rapariga ainda jovem mas já marcada de velha. Trazem suspensas nas suas mãos, duas bandejas de prata fumegantes, subtilmente fumegantes. Tudo aqui é contido, mesmo o fumo que se liberta dos alimentos quentes que a seguir vão servir.

Elas vestem branquíssimos aventais, branquíssimas toucas a tapar por completo os seus cabelos, brancas e imaculadíssimas luvas, cujos punhos terminam na linha de junção dos punhos rendados das mangas das camisas igualmente brancas. Não há – à excepção dos seus rostos não tapados por um nicqab, graças a deus – um pedaço de pele visível nos seus corpos. Tudo a bem da higienização. E da decência.

Justina serve a senhora. A rapariga que só vai ter um nome no dia em que a Justina for abatida - por morte - ao serviço, serve o senhor doutor. Treme-lhe um pouco a bandeja, inexperiência.

As lascas do bacalhau amarelo da Islândia pigmentadas pelo verde de um azeite de colheita, desfazem-se nas suas bocas mudas. Acompanham couves e batatas.

Ele levanta-se de novo. Vai prestar-se ao acto de servir-lhe um copo de vinho tinto “Barca Velha”.

Comem pausadamente, pouco por ser jantar. No sideboard um descritivo que seria enfadonho de serem muitos, dispõem-se doces e sobremesas típicas da efeméride.
A senhora come meia fatia de ananás, o senhor meia fatia dourada.

Terminam o jantar.

Justina e a sem-nome tem ordem para levantar a mesa, os senhores não tomam café aquela hora. Depois não dormem, mais complicado, não têm nada para pensar enquanto insones.

No salão.

«Minha querida, feliz Natal».

«Obrigado meu querido, para si também».

Trocaram prendas. Ligaram a televisão Bang & Olufsen, viram televisão antes de se deitarem cedo, não há necessidade de ser mais tarde, o pai natal não passará por ali e nunca houve crianças.


A felicidade é uma sorte.



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O TEMPO INSUBSTITUÍVEL QUE SE GASTA A FAZER UMA POSE





Um enérgico aperto de mão tem uma qualidade de acto sincero. Se for sincero, tem qualidade; um abraço, de amizade ou com intenção física pelo meio, é ainda mais atraente; um beijo, na boca, na face, nos interstícios húmidos, expectantes  receptáculos de um beijo a chegar quando chegar - no pescoço, a falta que lhe faz um beijo -, é de finura e gosto. 

Gostos sensitivos, gostos de conseguimentos civilizacionais de subtil elaboração evolutiva. Milénios e mais para conseguir apurar um bem executado aperto de mão, um abraço aveludado, fraterno ou meigo, ou ambos, um beijo seja ele como for dado, sendo bom, repenicado ou lascivo.



É assim que pensa e age José Alberto, homem lúcido. Do seu tempo, mas a conseguir continuar lúcido, não retrógrado, por que não dizer assim, que é importante.

Sai de casa precisamente para fazer estas práticas, obrigações diárias para aquietar a sua consciência social. O seu intuito. É um homem ateu com pouca convicção nisso – com penas mas ateu - e que na falta de melhor, à mão de dizer já, diz-se que tem um jeito de espírito de missionário. Sem uma religião para pregar que lhe vinha muito a jeito.

Podia ficar a ver televisão, porque já pagou todas taxas que tinha a pagar e agora recebe para ficar imóvel se lhe apetecer - mas não, sai de casa. Aperta, abraça, beija e contenta-se. As pessoas gostam dele por ser assim e ele também.

A vida é uma democracia de todos. Novos e velhos, que nessa condição que não desejam a ninguém, alguns são mais fogosos do que outros (o seu caso), mesmo que seja intermitentemente, na clarividência ofusca permitida aos velhos.

José Alberto é idoso mas é um contemporâneo, pelo que também “tuita” e “posta”, mas impacta-lhe pouco, pois prefere – já percebemos – o contacto directo. Prefere o confronto da vida em tempo real, no seu tempo pessoal real.
 A sua ideia de crédito positivo interpessoal define-se por um “like” que é uma piscadela de olho, um sorriso genuíno ou mesmo uma pancada nas costas, algumas dinâmicas demais, mas ainda assim mais valiosas que as estatísticas dos universos virtuais.

José Alberto é um "retro" moderno "vintage". 



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A PROCURA DO AMOR







O amor com a pureza de um diamante, era o que ele queria, caçador de tesouros raros. Dedicou a vida nessa busca, não parou para ganhar fôlego. Uma vida por pouco tempo que seja, é muita vida para se consumir a perseguir o amor, uma ideia de amor. Que outras escolhas são mais interessantes?

Ele, um homem teimoso como todos, procurou, destapou mistérios que deram em pouco ou nada, explorou detalhadamente algumas possibilidades estimulantes, umas avançaram mais do que outras. Umas não avançaram nada. Todas as pistas tiveram um fim, e não foi triunfal. Souberam a pouco, muito poucas souberam a quase muito, nem uma pode ser considerada como a grande descoberta, ou talvez não seja bem assim.

Frustração? Sim ou não, uma questão de perspectiva.

Cansou-se nessa vida nómada, gastou energias suas e pagou créditos a agiotas, e com o tempo a passar, concluiu ser sensato diminuir o ímpeto brusco, sanguíneo, imponderado das buscas, tomou a decisão de encurtar distâncias, ajustar a uma medida plausível as quimeras iniciais.

Afinal, o amor não está ao estender da mão. Ou está?

Desistiu de procurar e fechou-se em casa a ver fotografias e a cumprir escrupulosamente as horas das refeições e de alguns comprimidos.

Podia continuar assim se estivesse conformado com isso, mas ele pensava demasiado, persistia num tipo de rebeldia difícil de catalogar, e os comprimidos para dormir para fazerem efeito, levam anos a fazerem o efeito de branquearem os grandes pensamentos. Diga-se agora que ele nunca cumpriu escrupulosamente a toma de alguns comprimidos recomendados.

Sendo um buscador de tesouros, irredutível mas sensato, acabou por se conciliar com a ideia de que jamais encontraria esse diamante, o rei de todos os quilates. Contentar-se-ia  com a simplificação da procura, exigindo menos.

Pragmático, para dar um rumo à sua inquietação, catalogou o amor diamantino como uma abstração, coisa não coisa, e como tal, impossível encontrar. Uma inexistência prática.
Desvalorizou-o, fingidor. E foi aí que irradiou a luz, preenchendo-o e a sua aura. Livre da obsessão do inatingível, começou a amar verdadeiramente. De  repente toda a Criação se transformou em objecto de amor. Ao dar-se dessa maneira, começou a receber um eco mil vezes amplificado.
Estava à frente dos seus olhos, sempre esteve, o diamante multifacetado do puro cristalino que procurou durante todo esse tempo e que lhe consumiu uma existência.

Viciou-se e recuperou os tempos de quase desistência.  Saciou-se desse prazer, afinal perfeitamente acessível a todos.

Completo, despediu-se de todos e dele no dia que escolheu partir para o sitio da memória. Apanhou o transporte que lhe bateu à porta da vida, e lá partiu para a morada que dizem ser o sítio onde não há necessidades nem anseios.


Deixou o amor com os outros, ou para os outros, livrou-se não sem alguma pena desse tesouro tardio que afinal era uma quase banalidade quotidiana, os homens é que não sabem disso, só mais para o final.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O ESTRANHO MUNDO DA REALIDADE FICCIONADA





Ando na rua, vou para casa e escrevo. É a minha inspiração. Se isso é ficção ou realidade, não sei. Custa-me distinguir. Ainda ontem, sim, foi ontem que choveu bastante e ventanou como se mais não houvesse. Estava macambúzio e fui para a Baixa, gastar dinheiro, não tenho, mas hoje em dia não é preciso ter para se gastar. Em todo o caso fui, comprar presentes de Natal, as lojas agora fecham mais tarde e a animação dos turistas, desde que somos o melhor destino do mundo inteirinho, dura até as tantas, tarde portanto. Fui e deixei-me ficar, embalado pelo movimento das ruas, os sons dos músicos nas esquinas, o cheiro da castanha assada a preços de nova iorque, e a simpatia da gente bonita, colorida, que por cá anda, curiosa, a querer saber das nossas coisas, da cultura e assim. Acabei por petiscar e como chovia e eu gosto da chuva e é rara, decidi ir a pé apanhar o comboio ao cais do Sodré, rua augusta abaixo, na direção da praça do comércio, rua dos bacalhoeiros, e é um instante, faz-se num nada, e tudo em minúscula, agora é assim. Desinteressados dos turistas e estes deles, dormiam, supõem-se que dormiam, e eram pessoas vivas de carne e osso e não enchumaços falsos, uns quantos sem-abrigo enfileirados nas arcadas da praça. Passei por eles como se nada fosse comigo, a disfarçar que não os via, a fazer o mesmo que os outros que no momento passaram também por eles. Apanhei o comboio grafitado e moderno, que agora usa-se, e deixei-me chegar a casa, calçar as pantufas e servi-me de um generoso grogue, para reflectir esmiuçadamente sobre o assunto. E veio ao de cima esta minha teoria que enunciei no início, de ter dúvidas do que seja a ficção e a realidade, e dai confundir as duas e misturar, e até achar que tenho tardiamente alguma espécie minor de dislexia, se isso existe e pode dar-se tardiamente, na idade adulta. Se é verdade que aqueles anarquistas eram desalojados temporariamente permanentes de casas que já tiveram, e sendo o melhor destino, este, ganhador de todos os prémios que há para ganhar, parece que está a competir com aquele jogador de caricas famoso que diz que é o melhor de sempre e para sempre, apesar de se aceitar com um sorriso porque foi um rapaz necessitado e quando se é necessitado e depois se tem sucesso, fica entranhado  como tique essa ideia de se ser o maior-melhor, não se está a ver que as pessoas com responsabilidade e sérias que tratam  das coisas das cidades não tenham pensado nisso e não tenham resolvido adequadamente essa questão, para não dar uma imagem errada, aos que nos visitam e vêm à espera do melhor destino, para visitar, sem terem que tropeçar num desgraçado que por alguma e qualquer razão sua, egoísta, esteja ali naqueles preparos a dar mau aspecto e enfeiar as cidades que se querem o melhor destino por muitos e bons anos. Com isto, fiquei na dúvida, e quando se autoriza a dúvida a entrar em nós, para a desalojar é a carga de trabalhos, não vai com vomitórios, clisteres, ervas, colheres de carvão, nada. É uma peçonha para a vida. As pessoas emagrecem porque a dúvida consome as energias e as gorduras. Digo que fiquei na dúvida de estar a pensar bem ou a alucinar, sendo que esta última se adequa melhor ao meu carácter e da primeira, porque tenho a doença precisamente da dúvida, não tenho a certeza de ser possuidor, quero dizer, pensar bem.  Para não vir a ter problemas a adormecer conclui por certo ter ficcionado ou lido algures e a seguir ficcionado, que há desabrigados a dormirem nas arcadas da praça do comércio, local muito bonito de passeio para os turistas e os escassos habitantes da cidade. Problema mesmo é esta inspiração que podia dar para puxar brilho a móveis em vez de dar para escrever, que dá nisto, um redondeio sem pés nem cabeça. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

CIDADE DE DEUS, TERRA DOS HOMENS






Nas terras dos homens, os deuses servem os pretextos das guerras.

Não por eles, inofensivos, pacifistas, usados a contragosto.
Os deuses não castigam nem permeiam. Criaram a criação e continuam nas suas vidas sem pecado.

Entre si dão-se bem, visitam-se, convivem, todos primos e chegados.

São os homens, que congeminando argumentos falsificados, usam os nomes dos deuses – os nomes que eles acham serem os nomes dos deuses – para se porem uns contra os outros e fazerem a guerra.

E não há inocentes, são os culpados e não têm desculpa por serem crédulos, ou patetas, ou simplesmente desprendidos das coisas politicas do mundo.

Os homens não se podem desresponsabilizar das coisas do mundo.

São eles que aceitam vindos das suas tribos, os inquinados e de vontades venenosas, que se aproveitam da dormência dos outros para envinagrarem o caos no mundo, local que já de si tem essa tendência de personalidade.

Aproveitam-se porque têm interesses e fazem do mal a banalização do mal.

A cidade de deus foi posta a arder, para gáudio dos pirómanos que assistem ao espectáculo nas varandas amplas e bem sentados.


Está mais difícil andar na rua só para gozo de uma boa aragem, ou uma réstia de sol caloroso de fim de dia.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

POESIA




A poesia, louca admirável, diz o que se adivinhava indizível, ninguém mais o pode fazer, sem autorização cedida pela consciência, escapa-se dela, desconsidera-a .

É mal-educada com propósito e gaba-se disso.

A poesia desarma as palavras bem-comportadas que se dizem nas prosas. Numa conversa a duas, leva a melhor, com os argumentos de ser inteiramente genuína e a outra rebuscada, uma monotonia chata, dormente, que nem sequer rima.

A poesia dá piruetas no ar e isso é giro; acrobacias que assumem toda a criatividade e isso é arte.

 Os miúdos acham-lhe piada, ela dispõe os adultos. Os cães sem entenderem o que nesses momentos se está a passar, com os donos sob os efeitos alucinogénios da poesia, ladram. Querem dizer que estão contentes, por os donos também gostarem da poesia, não eles, é o que lhes falta para serem humanos.

A poesia diz coisas sérias em frases curtas, um sentido prático da maior abstração. Mas, a favor da sinceridade, a maior parte das vezes diz banalidades. Enche livros e livros de banalidades, todos os dias.

E é isso que os seus leitores querem: distração.

A prosa não, tropeça nas palavras, amolece os leitores, bocejam. É boa para isso, pouco mais, ainda que se arme em séria e credível.

Há diferenças fundamentais entre os poetas e os prosadores.
Os poetas são seres encantadores com quem não se pode viver em casa, desarrumam a cabeça dos companheiros. São completamente imprevisíveis. De um nada qualquer, sai um poema, o que altera o equilíbrio no convívio intimo das pessoas, intromete-se onde não é chamado. Mas não se podendo viver com eles, ninguém se imagina na falta deles- é um convite a ser nómada para quem foi toda a vida sedentário.

Os prosadores – a cara oposta - ajeitam os lençóis e põem as almofadas do sofá na esquadria certa. Seres ideais, mas completamente sensaborões. São copos de leite até ao fim da vida, apesar de poderem vir a escrever boas e enfadonhas prosas.

Normalmente os poetas não chegam ao fim das suas vidas a pagarem os seguros de saúde: fazem tudo para chegar rapidamente ao fim da vida.

Os outros, fazem planos poupança e reformam-se com as artroses a darem problemas inimagináveis. Tal a magnitude do incómodo, que deixam de escrever, esquecem-se que o fizeram.

Dão-se por vezes a rir - rir apazigua as dores - se alguém lhes lê um pequeno poema.


Os poetas não guardam rancores.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

CONTO DE NATAL A ACABAR BEM






A rena-chefe andava apoquentadíssima com o desleixo do Pai Natal. Incompetência. Não o podendo dizer com essa palavra, porque aos chefes não se lhes pode dizer isso - só pensar, e que seja de boca fechada. O chefe mesmo sendo-o em todo o seu esplendor, nunca o é, incompetente. Os gnomos também não andavam nada bem, mas esses sempre foram assim: folgazões, apreciados pela sua chalaça constante e a alegria que imanam, mas muito preguiçosos. Esparramados mesmo.

A praticamente três semanas do grande dia em que todos os humanos, incluindo os que têm deficiências de mobilidade, doenças crónicas, doenças terminais, acidentes gravíssimos de toda a espécie e feitio, os paupérrimos, indigentes, sem-abrigo, criminosos, os bonzinhos, remediados, muito bem remediados, os ricos, os alegres, os melancólicos, todos os crentes incluindo judeus, budistas, muçulmanos, cristãos, cristãos coptas, adventistas, testemunhas de Jeová, mórmones, amish, e restantes religiões  ( não se considere desprimor não nomear o nome mas a rena não os sabe todos) e todos os agnósticos e ateus, incluídos ou não nas categorias anteriores, anelam por essa quadra de grande paz e harmonia e amor, a extravasar das taças de espumante, e as filhoses e o bacalhau e o raio das comidas que nos outros sítios do mundo as pessoas comem nesses dias, que não têm gosto nenhum e ainda bem porque se todos comessem bacalhau já não havia para nós.

Anelam e almejam, que é mais ainda do que a primeira. Nesses dias baixa o amor à terra, cometem-se muito menos arbitrariedades, as pessoas estão mais piedosas, chacina-se muito menos, e quando se chacina usam-se métodos menos dolorosos, os chacinadores ficam mais frouxos. Mesmo o roubar de bens e dinheiro, em pequena ou em larga escala, faz-se mais diplomaticamente. Os de colarinho com goma fazem-no da mesma maneira que todos os outros dias do ano - geralmente não se dá conta - e portanto não contam para ilustrar este belo conto, são sempre iguais.

O mundo fica todo dado ao amor, que chega ao ponto de se votar um voto de rejúbilo ao Natal, nos parlamentos dos países democráticos. Depois disso, os deputados vão todos almoçar e são muito amigos (durante o resto do ano também). Nos países que não são democráticos, e não são muitos, os ditadores declaram que todos os súbditos estão obrigados a amarem-se uns aos outros, e podem também ir almoçar, menos os presos políticos, a escória de qualquer sociedade (não merecem portanto almoçar).

Sendo este o ambiente colectivo à escala planetária, é normal que as pessoas também vejam realizados os seus sonhos de presentes, já que os mereceram e pediram em sonhos, ou em introspeção intima.
E o Pai Natal, este ano, ainda nem sequer dividiu as encomendas por região e muito menos por apartado. A rena está preocupadíssima porque já antevê que vai ser le bordel (como dizem alguns franceses). O ano passado já foi assim: não programaram o GPS, andaram para trás e para a frente, aos saltos pelos continentes, com o Pai Natal e os gnomos a atirarem aleatoriamente os presentes para as chaminés. Gerou-se o caos e por mera sorte abafaram-se conflitos diplomáticos e outros de natureza mais bélica.

 Foi cristãos a receberem burkas, muçulmanos a receberem presuntos, refugiados a receberem voucher de fim-de-semana na neve, o Trump a receber um computador novo encriptado e ele não queria porque é um desbocado, o da coreia a receber os planos de um míssil verdadeiro, dos que voam mesmo com autonomia ilimitada, e ele que só quer brincar ao foguetório pífio. Enfim, houve de tudo.

A continuar assim este ano, as coisas podem complicar-se para o Pai Natal, porque começa a perder a credibilidade e se a perder a níveis rasteiros, não lhe resta depois outra profissão que a de político esganiçado.

Digam lá (pergunta a rena para si própria), o que vai acontecer se as vítimas dos incêndios em Portugal – e isto só para dar um ínfimo exemplo, de um lugarejo perdido por aí -  em vez de receberem as ajudas que os seus compatriotas deram vai para meses, a acamar nos cofrezinhos dos banquinhos, lhes dão árvores sintéticas com luzinhas led? Não servem para nada e quando ardem, apesar de arderem bem e depressa, não se podem depois vender. E a economia não prospera.

A rena, que já falou com as outras, tem um plano “B”. Se até ao fim de semana, que é feriado, o Pai Natal não atinar, no dia da distribuição, vão sedá-lo com medronho, prendê-lo com correias de couro de rena às pernas da mesa que são de granito ártico, e vão substitui-lo pelo senhor doutor Marques Mendes que nunca se engana, faz uns oráculos à distância muito bons, e é maneirinho, contribuindo assim para a poupança de consumos do trenó, e por consequência directa para a melhoria das alterações climáticas, um assunto também aborrecido, mas que a culpa é dos que fumam charutos: os cigarros também são bons e produzem menos fumo.


Espera-se que este ano, tudo se componha, e que seja um bom Natal, e passe depressa.


domingo, 3 de dezembro de 2017

PODER DA MÚSICA





Rasga, ouvir uma música sacra e não ter fé.

Ela a puxar os limites e nós, apalermados mas boas pessoas, querendo ir sem poder ir, ainda que indo.

A música desarma os argumentos.

Se fosse palavra – a música palavra -, encostavam-se interesses comuns, acordos temporários para derrubar o facto de se ficar desarmado por uma música religiosa não tendo fé.

Ginásticas para se dar a volta.

A música não vai em conversas de embalar, é música, dona garantida de todas as harmonias, mesmo as dissonantes.

Rigorosa e inflexível, na maior das flexibilidades que se conhecem, vem do mundo das coisas etéreas, e não sendo daqui, tem as regras próprias. Pode ser desavergonhada e religiosa sendo um problema seu, não humano, livre de noções pecaminosas mesmo que até seja enxofrada.

A música, leva-nos para onde quer levar que é lado nenhum mas um preenchimento de todos, uma fruição, só isso, tudo isso.

Faz-nos gato-sapato, e mesmo revelando-nos ao mundo como agnósticos sem nenhuma convicção credível do que se está a dizer, que  no final o que se queria mesmo era poder dizer-se que se acredita, mas não, falta algo.

 A música religiosa fissura-nos o corpo de bela, pungente. Leva-nos sem pedir licença para as alturas, só com a sua vontade, que nós não temos asas para isso, e a gravidade a puxar-nos constantemente para a insignificância.


Que não queremos ser, queríamos ser deuses , e é por essa vontade, que relatadas  vezes – poucos é certo – mas alguns de nós, fazem magníficos voos acrobáticos rasantes, mesmo ausentes dos movimentos voluntários dos acrescentos mecânicos que nos poderiam impulsionar para o céu.


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O MIRADOURO E O MONÓCULO







Perde-se o ar de tanto, uma asfixia, a respiração suspensa, no excesso de oxigénio, o que parece contraditório.

 No cimo da serra o que está a acontecer é  espanto, deslumbramento, uma paisagem inimitável, agreste. Como é a natureza, e como as pessoas ainda se admiram, todos os dias, com as suas novidades e  truques de mágicas inesgotáveis, a embeiçar os homens. 

A serra é circunspecta, senhoril, não cede a amizades fáceis. É profundamente bela, e isso é o que faz perder o folego e perdoar um aparente mau feitio.

Estar ali, em estado admirador, com uma visão panorâmica a varrer toda aquela lonjura, e o que se imagina de mais lonjura, tapada pelos recortes das serras e da linhas das terras, a abraçar quilómetros: um privilégio.

Se deus não se tivesse reformado seria uma bênção, assim é laicamente uma alegria.

Não é um equívoco: a paisagem é bela, mas não é o que se pode estar a imaginar da descrição feita. Não há cor, não há árvores, não há arbustos, flores, variedade de animais, os domésticos, pastores. Há um cinzento de tom único. É uma paisagem de como em esforço se visualiza um cenário lunar: cinzenta, nua, nem uma réstia de poeira a ser levantada por vento. Majestático e decadente.

Um grupo reduzido de pessoas encontra-se no local, um miradouro natural – tem um monóculo aumentador , de colocar moeda, que não funciona, vandalizado. O grupo, restricto, está ali em trabalho, motivo sério. Não são pastores, ou apicultores, ou tão só caminheiros. Nenhuns destes se reúne no cimo de uma serra por motivos sérios.

É um grupo de pessoas com interesses.

Os jornalistas fizeram as perguntas pigmentadas da anemia crónica habitual. Perguntas desistidas de serem perguntas já antes de serem ridiculamente perguntadas. Os batedores, os motoristas, os assessores de segunda linha, estão ali mas não estão, não vêem a hora de tirar os sapatos e sentarem-se no sofá, a beber uma cerveja ou a rezingarem com as esposas. Os das direcções gerais, estão ali como noutro sítio qualquer, não têm sentimentos, só ideias efabuladas sobre as reformas futuras, reformados desde o primeiro dia de entrada ao serviço. Os autarcas da cor ou de outra cor, estão para debicar os restos dos banquetes. Seres cheios de apetites insaciáveis.

O ministro olha para o relógio e lembra-se na agenda do dia, que ainda tem um último compromisso importante. Um jantar de investidores  imobiliários, num restaurante dos roteiros e estilo. Uma mesa recatada para não incomodar os outros comensais, que vão pagar muito e ainda conviverem  com um ministro e assessores.  

Lembrado dessa urgência, o ministro cansado e ligeiramente indisposto por estar ali,distribui - agora apressadamente -pêsames entredentes à meia dúzia de crédulos encartados que o acompanham, sorri  para uma derradeira fotografia, e faz sinal ao motorista para o resgatar para a realidade, a sua.


Se tivessem arranjado o monóculo a tempo, teriam visto as cinzas com mais pormenor.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O VOO






Escrever é como percorrer pacientemente - ou não - um espectro como as ondas da radio, procurando uma sintonia.

É uma tarefa quase sempre absurda, cansativa, mal sucedida, quando parece ser tão fácil juntar umas quantas palavras bem intencionadas, a fazer sentido.

Mas não é isso que se procura, fazer sentido.

Vai-se atrás de mais, que não se sabe. Algo que seja suficiente mesmo que só suficiente, à justa, para preencher temporariamente todos os poros e espaços em branco.

Depois, quando esporadicamente sai e flui, é-se oferecido de um espasmo inqualificável de prazer, que vai muito para além de um simples excelente momento de prazer.

É outro algo, etéreo, mas físico; volátil, mas que envolve. Sente-se a pressão desse enlaço.

Enfim, escrever não é nada fácil, mas é uma coisa não coisa que alguns poucos fazem tão bem; que alguns desejam suspirando tanto; que é fútil mas que tem uma utilidade: eleva a condição humana.


A partir do momento em que esse homem com condição, consegue desligar a ponta dos dedos dos pés do chão que o sustém, nunca mais ninguém o apanha, ganhou  num instante histórico, as artes do voo livre.

Fez-se artista.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

UM CASAL, UMA MULHER E UM HOMEM, AMA-SE.








Está praticamente vazio de viventes, o jardim onde uma mulher lê livros na hora de almoço. Também frequentado  por outras pessoas com objectivos de vida legítimos - independentemente de não lerem livros a essa hora - e animais domésticos descomprometidos com a vida e os objectivos, sejam eles os que forem.

Quase, porque vão aparecendo pássaros, que descem das árvores e vêm debicar o chão. Também cães, referenciados na zona, a cumprirem o passeio higiénico, guiados quase todos por raparigas jovens apetitosas - que era escusado e perigoso dizê-lo – filhas dos donos dos animais, obrigadas em chantagens de semanadas e saídas noturnas, a passear os bichos a hora certa, antes de irem para as faculdades ocupar o tempo, uma eternidade enfadonha, o tempo que se perde nestes sítios. Antes que se passe ao parágrafo seguinte diga-se que os pássaros, não cuidam de ser verão ou o que seja: debicam sempre que podem em todas as condições atmosféricas.

Elas, as filhas dos donos dos cães, cumprem a obrigação, concentradas no ecrã dos dispositivos móveis, e querem lá saber se o cão mija num tronco de uma árvore ou na perna – a pedi-las – de alguém que distraidamente se tenha sentado na esplanada completamente vazia num dia a ameaçar inverno, mesmo que estejam vinte graus. Não interessa, é um dia a ameaçar de inverno e assim sendo ninguém com juízo se senta numa esplanada: há dias para tudo, o problema está em que algumas pessoas não cumprem as regras.

A mulher dos livros não apareceu, as crianças que brincam no parque infantil, indiferentes às convenções, não deram pela falta, os adultos também não porque não foram ao jardim, num dia de quase inverno mesmo que estejam perto de vinte graus. Não se frequentam jardins, a não ser esporadicamente, ou por razão de força maior, como mijar para o tronco de uma árvore porque se está numa aflição de não aguentar mais. Coisa feíssima e deseducada, mas um imperativo para alguns.

Existe um estabelecimento de restauração, virado para o parque, que agora está cheio. É tempo de as pessoas serem assíduas dos espaços fechados, porque cumprem os protocolos da lei: inverno-dentro, verão-fora. Dentro do estabelecimento, pode-se olhar para as árvores despidas do jardim, ou distrair os olhos nas pessoas que se sentam nas mesas circundantes, e imaginar coisas.

Na segunda mesa da direita falam-se negócios; naquela esquinada, fuma-se e toma-se um vinho branco; nesta mais próxima, um casal de uma mulher e um homem, olham-se em silêncio, e ela afaga com um carinho puro a cara dele, que não disfarça o prazer que esse gesto lhe está a dar. Já não são jovens, cronologicamente jovens, mas actuam no amor como dois adolescentes, recém-chegados à descoberta das sensações que põem todo o corpo em pele da galinha, um alvoroço de suspiros prolongados, sonhos flutuantes, a fazerem-se caras patetas.


Hoje, não apareceu a mulher que lê livros, mas a presença enamorada dos dois numa mesa de café urbana, compensou a sua falta e entreteve os solitários, que não tendo nada mais que fazer, olham para os outros a viverem as suas vidas.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

UMA SECA




Antes pelo contrário, não fazia frio. As pessoas queixam-se com contenção de queixume porque lhes dá jeito, mas todos falam nisso. E termina-se a conversa com um sorriso dúbio a dar entender todas as possibilidades, e assim não se comprometem com responsabilidades. É melhor do que criar conflitos. Este aglomerado de pessoas, que foi raça em tempos passados e agora é só um aglomerado, têm este tipo de natureza: são informes: está tudo bem e mal, ao mesmo tempo.

Dar-se o sol a esta obscenidade e a temperatura ser de calores desta amplitude, no mês de novembro, é um contratempo ao qual as pessoas são alheias. Não têm nada a ver com o assunto, não fizeram nada (desculpam-se elas consigo próprias), concordam que não está bem, mas andam felizes por não chover. E se a água vier a faltar a culpa é dos espanhóis, que são um povo estuporado, que atazana desde tempos imemoriais a vida dos do lado de cá.

José António mesmo com os contratemos climáticos, optou por tomar uma decisão fundamental. Nunca lhe tinha acontecido tomar uma decisão assim, é a primeira vez, pelo que espera ingenuamente que lhe corra bem.

Esta decisão é do foro psicológico mas o senso comum acha que é uma mera extravagância física. Ambos estão enganados, o senso comum e os que pensam diferente: é uma coisa holística.

José vai anunciar finalmente, depois deste tempo todo – já com cabelos a branquearem, e o corpo a não ir para Adónis -, o seu posicionamento sexual.

Alguém que faz isto, deve ter razões inquestionáveis para o fazer. Anunciar um posicionamento é quase como uma fractura: fica-se a saber que depois disso haverá os que ficam numa margem e os que estão na outra. E o anunciador, tem sempre que escolher uma delas, perdendo os outros.

Mas é um posicionamento, vocábulo que não tem discussão, nem argumentos. E já que o mundo pode acabar a qualquer momento, ou pelo menos a eminente falta de água, vir a originar desidratações fatais, e ninguém está livre disso: pode muito bem vir a acontecer ao José António, e ele sem ter tido tempo de soltar a franga, pelo que resolveu anunciar-se.

José António é binário transgénero, não masculino, não feminino. Os pais morreram toda uma vida sem desconfiarem de nada; alguns amigos, poucos, acharam-lhe um piquinho muito ténue, mas nunca valorizaram; e no trabalho, continua a ser um excelente professor com a carreira congelada.

Uma coisa é mais do que sabida, mesmo em tempos de seca, José António pode orgulhosamente passear-se por aí a sibilar aos ventos a sua tendência de género, sem que por lei possa vir a ser assediado ou impedido da sua liberdade.

Pode vir a faltar a água, mas os seus direitos são inalienáveis, e até que  venha a encontrar-se uma relação directa entre os recursos do planeta e a acção maliciosa ou negligente dos seres que a habitam, nomeadamente os transgénero binários, a sexualidade bizarra do José não é tida nem achada para as vicissitudes do tempo.

A culpa é e continuará sempre a ser dos espanhóis.