domingo, 18 de setembro de 2016

IMPRESSÕES SOBRE OS MESES






Lá fora é Setembro, a luz já não é a mesma.

No Verão partículas de calor turvam o ar, saturam o ambiente. A luz em toda a sua plenitude encadeia. Anula o distanciamento, o perto e o longe. Os horizontes tremeluzem mais, longínquos como sempre, e ganha a persuasão do imediato que está à mão. É o tempo do agora.

A luz do Verão incide difusamente sobre os objectos, coloca-os à distância de um braço estendido que tateia os seus contornos esguios, por essas razões é uma época sensual dada à aproximação dos corpos.

Com a mudança do mês, na despedida da estação os cenários ganham lucidez, desaparecem as poeiras, puxam-se brilhos, redefine-se o aspecto das coisas, ou sendo mais simples, volta-se a habitar o quotidiano, anuncia-se a entrada no tempo sério.

Lá fora é Setembro e as crianças ainda jogam futebol na rua e gritam gastando energias impensáveis. Andam nisto há meses e não se cansam, felizmente. Quando começar a chuva e o vento, deixam de jogar na rua e não podem gritar em casa. Aborrecem-se.

No Verão a cristandade inteira pedia para se continuar em modo parado, sem se exigirem trabalhos a ninguém, tudo a sonhar que era assim a eternidade, uma suspensão do movimento inútil, a fruição do nada totalmente imóvel. Os outros, muitos, que não são cristãos, também estavam de acordo com esta ideia.

Em Setembro muda tudo, começando pela novidade que o Outono não tarda aí, e alguma frescura, dias mais curtos, olhares e meneios de corpos marcados por um romantismo específico talhados para esta época do ano.

Lá fora, as crianças continuam a gritar e a jogar, e assim será até perderem a inocência e deixarem de sair à rua por razões lúdicas, quando forem empossadas oficialmente a só terem razões laborais. Elas ainda não têm preferências pelos meses, porque estão na fase de serem eternas e não estão minimamente interessadas em saber que os meses têm nomes e são diferentes e efémeros, e alguns deles bastante chatos.

Lá chegará o dia em que elas realizam que não existe a imortalidade. Umas ficarão melancólicas, outras exacerbadas, com polo negativo ou positivo. Será nesse momento que se estabelece a doença da renúncia que acabará por as consumir.

A melancolia é uma tristeza que se aguenta, o exacerbamento é um exagero perigoso, dizem os psiquiatras que algumas vezes têm razão, quando não estão exacerbados de si nos outros.

O Verão será sempre caloroso e açafrão, o Outono é – diplomata entre o calor e o frio - como lhe toca e gosta, romântico. Usa-se de cores só autorizadas a vestir sem moderação na sua época, convencendo inclusive as árvores e os arbustos a abandonarem temporariamente a cor verde, arriscando acobreados, extravagâncias a que a natureza fecha os olhos nesta altura do ano, confundindo-se a si mesma pela alteração da ordem das coisas, neste caso as cores que forram os espaços dos jardins.

A menos que as estações do ano mudem em pirotecnias climáticas e contra a vontade dos deuses e dos ateus que são conservadores e não gostam de novidades que os tirem do sério, os meses do ano são fiéis aos seus princípios de serem como são, correspondendo honestamente ao que se espera deles: nada de particularmente especial a não ser as suas diferenças.

São os homens quem tem uma acentuada tendência para se extraviarem, enviesarem, entornarem, e coisas assim, e são eles a maioria das vezes, que quebram os tratados de fidelidade, indo pelas costas e atraiçoando as expectativas dos meses, que apesar de viverem há uma eternidade continuam e continuarão a ser absolutamente ingénuos.

As crianças chilreiam e esvoaçam. Não, são os pássaros. As crianças apalavram gritarias e dão saltos esvoaçantes. Está bem assim.

Lá fora faz um Setembro de se lhe pôr a vista em cima.


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