segunda-feira, 25 de julho de 2016

SOL E PESCA






Não é propriamente um bairro. Num bairro habita gente com animais de companhia, este sítio é um local de pessoas de passagem, circulantes, caminhantes acinzentados indo e vindo das suas ocupações da vida. Alguns param, intervalam ao fim do dia para conviver e beber nos estabelecimentos antigos e poucos que sobrevivem.

Na nomenclatura das lojas, dos bares, dos nightclub, figuram nomes com as toponímias do mundo: Copenhaga, Tóquio, Jamaica, Oslo, Europa. Dá-se a volta à terra na distância de uma rua, com o chão pintado na cor da rosa. O comprimento do mundo em trezentos metros estreitos.

A zona foi pouso de marinheiros e senhoras de profissão liberal com contador de moedas entrepernas. Agora passam turistas escrutinados pelos olhares desconfiados dos residentes escassos, amarelados há muito pelo insidioso mal da nostalgia, que lhes põe essa cor emaciada. Velhos que se deixaram ficar, e ao darem conta disso, tinham raízes a prendê-los às pernas dos bancos de madeira onde estão sentados desde a reforma a ver os movimentos da rua.

As putas que fazem disso profissão, continuam coladas às esquinas, as que por ínvios caminhos ainda não morreram de doenças venéreas, ou conseguiram amealhar uma reforma, agora ninguém lhes pega. A cada um a sua utopia, todas impossíveis, ainda assim nalgumas chega-se quase lá, estas são difíceis de chegar ao quase.

Havendo marinheiros há mar por perto, é um rio largo e fundo o que passa por estas margens. Antes estava cheio de barcos de muitos nomes: muletas, enviadas, faluas, barcos de água acima, fragatas, varinos. Uma azáfama, um engarrafamento, enfunados pelas velas latinas, quase mais barcos do que água para navegar.

Hoje o rio perdeu as cores garridas que pintavam os barcos e os nomes que eles tinham foram esquecidos, nomes tristes, ou palavras de amor, pintados nas proas por mãos indecisas.

Para além dos barcos enormes e fúteis que hoje passam atafulhados de passageiros em trânsito, e de alguns peixes persistentes e apegados ao sítio, o rio pouca vida tem, envelha, arrasta-se com os vagares a que se acha de direito, ao encontro com o seu epílogo, sem pressa de se apresentar ao mar.

Como o rio, alguns velhos locais pingam os dias entediados pescando, desde que o sol pestaneja até que se retira para ir iluminar o outro lado do mundo. Não têm para onde ir, ou não querem ir salmodiar com as esposas aborrecidas e eles aborrecidos.

Ficam-se por ali, a fingir-se esquecidos, abeirando o olho alternadamente para a água a ver se vem peixe, ou para os transeuntes, estranhos estrangeiros, não são como os nossos.

Os bares e nightclub que se disseram antes, estão de novo de moda, alguns com ordens de despejo para se construírem apartamentos de residência temporária para turistas de baixo custo.

Porteiros e seguranças, arcaicos, barram as entradas arbitrariamente, fazem-se difíceis. Quando aqui mandavam os marinheiros sifilíticos e as putas eram decentes, agradecia-se a entrada dos clientes, e nos desacatos os porteiros perdiam invariavelmente. Eram lutas que obedeciam a códigos, tinham uma ética, lutava-se corpo a corpo, mãos despidas. Hoje as lutas são mais cobardes.

Neste bairro estrangeirado com os nomes das outras terras, inauguram-se agora restaurantes a fazerem estilo, geladarias artesanais, bares com “assinatura”, até que num dia de vendaval da história – de todas histórias – tudo desapareça, e as pessoas geralmente instáveis e de fidelidades curtas, troquem o local por outro mais na moda.

O maior mercado de Lisboa era aqui. Transfigurou-se num conceito de restauração gourmet com mesas corridas onde os clientes se sentam - todos juntos e desconhecidos - para comerem e beberem apressados pela pressão de outros que aguardam lugar. Mantém-se o edifício, o resto é caríssimo, barulhento e trendy.

Os armazéns e os escritórios desapareceram. Não se vendem a turistas aprestos marítimos, cordoarias ou mantimentos enlatados com um prazo de validade prolongado. Já não há escorbuto vai para séculos e cordoame é para barcos que já não existem.

Os armazéns de fardas - dos bombeiros à mais fina das domésticas - fecharam portas. Os patrões já não gastam dinheiro nos atavios das criadas. As patroas encheram-se de coragem, montaram negócio unipessoal e fazem a suas próprias limpezas e serviço de cama e mesa.

Um estabelecimento de finas roupas de homem. Fatos que antes vestiam os donos das agências de viagem e os transitários animam hoje os manequins da montra, todos os dias linda, a ensinar um fato de três peças caríssimo de bom corte e tecido para o qual não olha ninguém.

Das lojas de artigos de pesca restam duas – onde os velhos se abastecem de minhoca. Não se está a ver que outros artefactos possam vender. Os turistas não vão à pesca, as putas mantêm-se, firmes e hirtas, encostadas à parede, totalmente desprovidas de vontade de ensaiarem uma ida à pesca.

Resta o Sol e Pesca.

Na rua cor-de-rosa, que mimetiza a cartografia do mundo. Nada mudou, os objectos habitam os mesmos sítios, o odor a mar persiste. Por cima do balcão de madeira maculado com a pátina dos tempos, exibem-se as bóias, de vários tamanhos e feitios, com riscas que dão nas vistas, os objectos mais vaidosos das artes da pesca. Por detrás do balcão a parede está forrada com gavetas de madeira. Gavetas que se expõem desabridamente são provocadoras e misteriosas. Gavetas assim, antes de serem abertas, são segredos que queimam as mãos.

Abrigam o espólio dos anzóis, simples, duplos, triplos; com o olhal em argola, em agulha ou em pata; de hastes longas, comuns, curtas, fechadas; não importa como sejam, sufocam de tédio em gavetas que já não se abrem, o cemitério de uma de retorcidos anzóis definitivamente inúteis.

Quadros desbotados e de dimensões generosas estampam a fauna marítima dos mares dos Açores, os bichos de maior envergadura em destaque: espadartes e atuns. Os outros por aí abaixo, por ordem de encurtamento de tamanhos, até à petinga, que mais pequeno não se come, e não tem direito a menção nos quadros tal a irrelevância do tamanho.

Armadilhas – aparelhos - suspensas do tecto, para o polvo e para o marisco, a ganhar ferrugem.

As canas não estão a venda – de bambu, ridículas – fixas numa base de chão ,fazem de cardápios. Espetam-nas como estacas em frente dos clientes, oscilam ao lado das mesas, dando a sensação do balançar de um barco.

Contam a história da indústria das conservas de peixe, marcas de outros tempos, lendas, algumas reabilitações e renascimentos inesperados.

O olhar posto nas prateleiras onde piscam estas marcas, é um regresso à meninice. Na mercearia do senhor Xico perfilavam as mesmas conservas que íamos em busca a mando da mãe, para salvar um jantar. Enquanto ele aviava, surripiávamos rebuçados.

O “Sol e Pesca” teve uma boa transformação, fizeram-se respeitos ao seu passado. Antes de se ensaiarem à visita da Pensão do Amor, os turistas ficam fascinados com a muxama de atum, o presunto do mar.

A pensão fica no prédio ao lado,já não recebe clientes à hora, as camas e os percevejos transformaram-se num museu-bar. Nunca os percevejos estiveram tão in e desabitaram este lugar, agora local de dança e convívio.

É assim o novo Cais do Sodré em Lisboa, trocou as mulheres fáceis pelo turismo fácil, mas vale a pena passeá-lo e ir ao Sol e Pesca, petiscar um atum regado num fio de azeite. A acompanhar um jarro de vinho simpático anestesiando das chatices da vida, ao som encantatório de uma coladeira.


Aqui dá-se descanso ao fado, que até Santa Apolónia e apanhando pelo caminho os bairros que fazem beiral com o rio, não se ouve outra música, o que chega a aberrar. É assim: é um dos bens imateriais (como agora se diz), que esta gente ainda tem para vender.

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