quinta-feira, 2 de junho de 2016

O MEU SANTO ANTÓNIO É MELHOR DO QUE O TEU










Ó meu rico Santo António,
tuga do meu coração,
faz-me lá um milagrinho,
um amor de supetão.


Para os Lisboetas que levam o amor pela sua cidade como coisa séria, aproximam-se os melhores dias do ano. As festas em honra do seu santo padroeiro, santo repartido, mas mais nosso do que dos outros, os italianos.

É o momento do ano em que descontraímos corpo e alma, às voltas com o caracol, a sardinha importada, o tinto a tingir os beiços.

É a época em que suportamos todas as cores e feitios, e até um arbusto desinteressante (é uma erva de aroma e dá pelo caricato nome de Ocimum minimum) que para dar cheiro é preciso deitar-lhe a mão, ganha uma outra vida e se torna um protagonista efémero, com um cravo de papel espetado e uma quadra popular dedicada ao festejO.

As tristezas e as vinganças da vida pagam-se depois, quando baixa a adrenalina, que agora anuncia-se a folia para o mês inteiro. As pequenas picardias ficam para a noite do desfile das marchas na avenida e quando se anuncia o vencedor: nunca o que se queria que fosse, o nosso, sempre os do lado – cambada de pindéricos! – amigos dos jurados, está tudo feito e combinado com antecedência.

Nas noites do santo António os bairros vivem-se fora de casa, na rua, nos becos e nas vielas, nos pátios onde se montam os grelhadores, as mesas desconchavadas e instáveis, se arma a banca das vendas, e se ouve a música popular, ensurdecedora pelo volume e pela qualidade, que gosto não se discute. Nessas noites até o Cid marcha, quer-se dizer: dança-se, neste caso sem banana e com o manjerico na mão.

Os turistas que andam por cá em bandos, tambem a marchar mas atrás de um pau com uma bandeirinha, transportado por uma senhora de meia idade com um ar enfadado e que fala sofrivelmente línguas, vão levar um banho de civilização, a nossa. Alguns irão mais leves para casa, desapossados das suas carteiras recheadas, outros vão fascinados de nós, dos costumes, dos petiscos, da bonomia de alguma gente, que nem toda.

Ao fim da noite, nos bailaricos improvisados e noutros de alguma organização, eles já cantam as modinhas locais e fartam-se de sorrir e dizer obrigado, partilhando os bens e as mulheres que se deixam, com os locais. Fartam-se de pagar cervejas e copos de sangria. Ganharam uma corte de novos amigos, desdentados e oportunistas (não são só os transmontanos), e amanhã vão ter uma ressaca tremenda enquanto visitam o claustro do mosteiro dos Jerónimos ou vão de homenagem ao Eusébio no Panteão Nacional.

Fazendo calor, muitos pares de pés descalços e encortiçados de tanto bailarico, procurarão refrigério na praia do cais das colunas, nas suas águas cristalinas e tão transparentes que se veem as taínhas a debicarem nas latas de conservas abertas e vazias que jazem no leito imaculado do rio.

Pés que se banham a horas tardias, tão tardias que o sol já desponta.

Não sabem onde estão – os pés e as cabeças - naquele estado não encontram a rua do seu maravilhoso hostel, com vista para o estendal da vizinha da frente, onde secam despudoradamente cuecas lilases e roxas (no chinês a três euros) lavadas depois do uso semanal, todas em fila, a contribuírem com o seu colorido para o festejo.

Quando baixarem os níveis de deslumbramento por estas festas tão lindas, os turistas acabarão por encontrar o seu rumo, a morada certa, e nessa altura, quando finalmente se forem deitar, já as cuecas foram apanhadas, porque estão secas.

A expectativa desta comemoração, à distância de uma semana, origina uma grande excitação. Tamanha é a agenda dos acontecimentos, que só acontecem uma vez por ano, e a vontade de os reviver: as noivas e noivos que se casam na Sé Catedral sob o beneplácito do santo e o sinal da cruz do patriarca, acabadinho de chegar de outra marcha, ainda com a camisola amarela a destoar do solidéu; o concurso dos tronos no Rossio – voltou-se a esta tradição, espera-se vê-los alguns e bons; o desfile sumptuoso e rico dos bairros da cidade pela avenida abaixo, mais os indispensáveis apresentadores televisivos histriónicos, sempre os mesmos, as madrinhas e padrinhos, figuras públicas algumas, que abrilhantam a competição ou a tornam um local mal frequentado; finalmente a enorme multidão que anda na rua, insuflada de contentamento, suando felicidade pura, deitando os maus olhados para trás das costas, que mesmo difícil e cara a vida, ainda se dá tudo por uma sardinha no pão, e vale a pena o mês de Junho para nos lembrarmos que temos santo, e podemos mandar com propriedade e diplomacia os italianos à fava, que este santo não o merecem, depravados do esparguete!

O santo António é lindo e para muitos de nós é melhor feriado que o 10 de Junho, o 25 de Abril ou o 1º de Dezembro. É como se diz, um valor seguro, que nunca falha e está sempre presente (no seu espírito celestial).


Viva o rei dos feriados, com os devidos cumprimentos aos reis dos feriados dos outros parceiros, que lá no céu eles são todos amigos, o António, o João e o Pedro, não mencionando outros que seria fastidioso, mas de que não temos menos consideração.

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