terça-feira, 5 de abril de 2016

FOMOS OS PERCURSORES DO TURISMO EM LISBOA





Nem um “ai” num boletim municipal, uma referência do Turismo de Lisboa, nada!

Fomos a primeira start-up, ainda o nome não existia, nem se sabia o que era (nem hoje).

Os comerciantes de Lisboa tinham uma ideia distante do idioma espanhol, eram os caramelos e pouco mais; meia-dúzia tinha umas luzes esbatidas do significado de quatro ou cinco palavras em francês, porque tinham familiares nos bidonville à volta de Paris; o Inglês falavam os bárbaros. Não se tinha visto a cara a um chinês, a um russo, a um angolano com dinheiro.


A Avenida da Liberdade tinha consultórios médicos e cinemas. Em Alfama o fado escorria pelas paredes dos botequins de copo “três” e atiravam-se pelas janelas os restos das couves e das sardinhas do almoço. As conservas andavam pelas ruas da amargura e nem nós as comprávamos – por muito bonitas que fossem as embalagens.

Só havia dois tipos de alojamento temporário para pessoas em trânsito: pensões com camas de casal partilhadas com percevejos e hotéis com instruções em português no minibar.



O Cais do Sodré tinha a maior concentração de putas e marinheiros sifilíticos por metro quadrado da península ibérica, era o local com os nomes mais cosmopolitas da cidade: Tóquio, Jamaica, Copenhaga, Shandri-la….




O Terreiro do Paço era o parque de estacionamento mais moderno da edilidade; quem se abeirasse do cais das colunas para uma photomaton, ficava com o cheiro do esgoto a céu aberto impregnado nos próximos quinze dias, ou pelo menos até ao fim da sua estadia. Ninguém fazia filas para visitar a Torre de Belém, que é bonita por fora e monótona por dentro.

A PSP vestia cinzento e tinham uns abdominais de fazer inveja.




Os carteiristas do eléctrico 28 eram os mesmos de hoje – juntando os romani - mas faziam muito menos dinheiro, porque os utentes eram os desgraçados dos operários e pequeno-burgueses que viviam na Graça, e eram uns tesos.

Os turistas, escassos, chegavam à estação de Santa Apolónia e até chegarem à Baixa, passavam pela alfândega de Lisboa e todos os escritórios de Despachantes Oficiais, a maior concentração de indivíduos com níveis paranormais de testosterona e inteligência a condizer.

Não havia tuk-tuk, só Zundap e Fammel, que faziam a mesma poluição sonora mas transportavam tipos com patilhas, cigarro ao canto da boca, botas de carneira, em vez de loiras espampanantes e ruivos entediados.

Fomos nós, uma mão cheia deles, os primeiros “acolhedores” dos turistas – mais elas, e não há uma consideração, uma referência abonatória, do verdadeiro trabalho de divulgação que aporta agora, todos os dias, a toda a hora, tantos euros e dólares e outras moedas manchadas de gordura, para riqueza da nossa cidade.

Recebemos em nossas casas, conheceram os nossos pais e os amigos mais tímidos, mostrámos todos os monumentos com explicações em linguagem gestual elaborada, choraram com o fado, vibraram com o calor do nosso acolhimento latino, fomo-nos despedir à Estação com uma garrafa de vinho do Porto, fomos os "Guis", a time-out em viva voz.

Inventámos o alojamento alternativo, qual hostel, qual city apartment! Demos voltas à cabeça para os distrair da inexistência das lojas de gifts very typical paquistanesas, das cadeias de fast-junky food, do pret-a-porter kitsch.

Era o que havia e eles gostavam, encantavam-se, e os que verdadeiramente se apaixonaram da beleza da cidade e da naturalidade das suas gentes, voltaram, repetiram, ficaram amigos.

Fizemos um grande trabalho, e agora temos que pedir a medo uma bica e um pastel de nata de qualidade duvidosa, em inglês escorreito, sob pena de correrem connosco da mesa de esplanada, que é só para consumo de turista.


E nem uma p… de uma medalhita de latão!

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