quarta-feira, 9 de março de 2016

A DOENÇA




Conheço-o mas não sei o nome. São os nomes que me falham, os rostos não. Os nomes têm letras e são essas que me entontecem. São muitas, não as junto bem. Quando me abordam, os rostos, não sei o que dizer. A cabeça para, fico a observar, a ver no que vai dar. Abordam-me com simpatia, eu queria ser educado, mas não sai nada.

Por vezes, desbloqueia-se um encadeado de letras, saem com uma velocidade inaudita, e digo-o, desanuvia-me. Mas o rosto que fiz o favor de lhe dar um nome, não gosta. 

Contrapõe com perguntas inconvenientes. “Quem é ele?”, “Como se chama?”, “Graus de parentesco?” Nesses momentos fico cansado, enervo-me, perco o controlo das letras, e para não ser inconveniente, olho, só olho, de olhos bem abertos, sem nada para dizer.

Ainda ontem, deve ter sido ontem, estava a tratar de uns assuntos importantes com a minha mãe, na cozinha, coisas da morte dela e do funeral que não gostou porque teve pouca gente, estavam também uns amigos do Gás que entraram pelas escadas dos canos por baixo daquela coisa que deita água para lavar pratos, e entra uma cara que está sempre a aparecer, que eu conheço, mas não sei como se chama. Não me deixou falar mais. Pôs-me uma coisa na boca e mandou-me para a cama.

Ficámos ali os dois, eu deitado e ele sentado ao meu lado, sem dizermos nada, ele com um ar carregado, eu a olhar para o tecto, a gostar de olhar para o tecto.

Como conheço aquela cara, acabei por ficar meio alterado com a sua tristeza.

Não lhe disse nada porque não me apeteceu estar para ali a deitar letras, fiquei de olhos arregalados.

Puseram-me uma coisa na boca, sabe bem, sou feliz.

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