segunda-feira, 15 de junho de 2015

O OLHO DA TIA FLORINDA






A minha tia tinha um olho de vidro e à noite afogava-o, maneira de dizer,num copo de água em cima do psiché.

A água não era gaseificada, mas constituíam-se pequeníssimas e inúmeras bolhas à sua volta. A modos que um olho numa flute de champanhe.

Para quem está habituado a dentaduras a boiar, esta foi uma grande ideia da minha tia.

Sendo uma mulher com o sentido prático da vida, e como não se está a ver ninguém dormir com um fechado e outro aberto,  não tendo outros inquilinos, arrendou o aquário ao vítreo.

Foi o meu avô que lhe ofereceu o olho, mais para ganhar as graças da sogra e ficar oficializado o namoro com a minha avó, sua irmã, do que por atenções à zarolha. Foi no entanto um gesto de simpatia.

Um dia já sem memória que a bicheza das campas  as comeram ao mesmo tempo que as carnes, chegou a casa delas com um embrulho de papel pardo na mão e disse alheadamente: «toma, a vê se encaixa».

A minha tia desembrulhou-o na expectativa das testemunhas oculares  - a mãe Carolina e as filhas -  puxou brilho com uma naturalidade que parecia não fazer outra coisa que puxar  o lustro à vista, acompanhou-o até à nova habitação, vazada por um gato de maus humores e relaxou-se a olhar fixamente para a audiência, boquiaberta e parva pelo novo cenário da rapariga.

Na realidade não ficou a ver melhor, mas parecia mais atenta.

O meu avó ganhou créditos, os homens que em momentos de necessidade substituem peças em falta aos familiares mais chegados, estão sempre bem vistos.

Quando se dá de caras com o mundo, os corpos vêm sempre necessitados de pequenas revisões. Deus cria tantos, que calham imperfeições aleatórias.

O Mário não substitui o Altíssimo, mas cumpria os deveres de bom cristão, como mecânico em terra.

São estes pequenos e quase irrelevantes gestos que transformam as nossas histórias futuras.

Não lhe tivesse baixado a ideia - estratagema sedutor - e a minha tia não teria tido as vistas todas – apesar de uma ser a fingir -  ele não teria casado com a irmã, e por sua vez, que isto é um encadeamento estonteante, eu não estaria agora a recordar um olho de vidro que o meu avô comprou um dia numa loja no Martim Moniz.

Grande imitação de olho que era!

Se  minha tia foi sempre uma mulher amarga num coração enorme às avessas com o mundo, amaciou-se de vez e com dois olhos, mesmo com um inactivo, pediu-se de partilha de leito e outras agruras ao Jacques, que nisto de decisões grandes ou ligeiras, não se aconselhou com terceiros.

O afrancesado que não fazia a mínima ideia que o era – aparte a estranheza do apelido -  descendente da eventualidade de um espermatozóide perdido desde as invasões francesas, entregava botijas de gás e apesar da sua profissão, não resistiu aos encantos da Florinda.

Quando uma mulher se põe bonita fica o mundo em alvoroço.

Quando eu era criança e a visitava numa vila operária de Lisboa fazia figas para que o olho ainda estivesse em repouso. Ela abria-me a porta, beijava-a furtivamente e esgotava os passos curtos numa casa que acabava ao começar, rumo ao quarto para deliciar-me rodando o copo, tentando entender o que é que o olho da minha tia Florinda estava ali a fazer, descansando dela.

E como a imaginação das crianças é ainda mais prodigiosa que a Criação, que esta trabalha com matérias e a delas trabalha com as energias da imaginação, via-me a descobrir - no olho de vidro -um roteiro de pequenos vasos sanguíneos, desenhando curvas e contracurvas que me lembravam estradas.

Jurei-me a pés juntos, que a íris se contraía no confronto do meu olhar, ficando perplexo com a ideia do olho da minha tia estar a olhar para mim dentro de um copo de vidro, enquanto ela amanhava carapaus para o almoço na cozinha.

Lembro-me bem desse olho, ainda deve estar vivo.

Se alguém o encontrar por acaso, numa visita a um ente querido e fenecido, em repouso no cemitério do Alto de S.João, não se assuste que é o olho da minha tia Florinda.


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