domingo, 31 de maio de 2015

O estranho estrangeiro




A música é uma grande abstracção, tão enorme que transforma os infernos em locais aceitáveis. Os sons e as ausências calculadas deles, esticam o fruir dos homens ao limite, e é pousados nessa linha invisível, que descobrem finalmente o infinito.
Ele é um desabrigado cheio de classe, sim se essa designação pode ser atribuível à classe dos sem-abrigo, já que se tem que pôr rótulos em tudo.
Aparece materializado do nada, com aparecimentos referenciados em vários locais ao mesmo tempo. Pode ser um demiurgo, prestidigitador, que tenha descoberto a arte de viajar no tempo, ou simplesmente um outro ser, o que complica muito as coisas do entendimento.
Numa tentativa de fazer a sua descrição, dir-se-ía um indivíduo longilíneo, a apontar para o alto, aparentando uma grande leveza: tem movimentos lentos, flutuantes, executados em gravidade zero, não denotando esforço nem respiração.
Sendo certo que a sua roupa não está actualizada, visíveis os sinais de abuso, não se pode dizer que ande desleixado, muito menos sujo.
Digamos que está revestido da pátina do tempo, numa conjugação com indícios de gosto.
Como é um ser fugidio e inesperado, especula-se à volta da sua história. Na monotonia das suas, as pessoas ensaiam-se em à vontades e palpites a inventar a dos outros. E como é um ser com presença notada, seja pelos aparecimentos súbitos, seja porque se desarmados, basta um pestanejo e ele já desapareceu - esvanecido em pó – inventam-se versões da sua biografia, onde como se calcula, algumas são exageradas, para não dizer de credibilidade dúbia.
A versão oficializada que corre é a de que ele é Checo, com aparição registada ao Sul há uns três, quatro anos, movido pelas inevitabilidades de uma paixão lusitana. As coisas não correram como esperado, ele deprimiu, e ficou, ainda esperançoso de um possível desfecho amoroso a bom termo, ou amainado pela clemência calorosa do clima, que leva à modorra (palavra tão esbelta no dizer e no seu significado, que não cansa abusar dela), inevitabilidade confirmada pelos locais.
Ninguém sabe onde vive, como vive, de que vive. E não sabendo nada disto, pode-se dizer que não se sabe praticamente nada. E essa ausência de saber, é terreno fértil para a invenção, daí haver pessoas que lhe atribuem um espírito pitónico, e outras, menos radicais, que acham só que ele é um mágico comum.
Quando a carrinha pára, mesmo ao lado da pastelaria Benard, que nestas tardias horas da noite, ressona afagada por Morfeu, ali está ele pronto a receber o saco das sandes e o iogurte.
Umas vezes tem-se a ideia que ele fala sofrívelmente português, noutras responde como lhe sai da boca: num inglês emaranhado, que pode ser alemão, ou checo, que não sabendo os ouvintes como são os sons do Norte, não podem garantir que seja isso que ele fala.
Se está bem-disposto – é o que dizem os que andam nisto há mais tempo – tira fotografias de grupo no seu telemóvel nada barato. Se está soberanamente bem-disposto, tira da sacola uma belíssima flauta preto azeviche, e orientando primeiramente o nosso olhar para a lua – artista que é – arremata a encenação na atenção focada em si, antes de dar início a uma récita curta.
Não é um virtuoso. Mesmo não o sendo é um músico, os dedos esguios que tapam e destapam os orifícios dessa flauta estrangeira, emitem sons que desconstroem a noite em dia – clarificam-na - a feiura do escuro, numa ronda pela noite dos sem-abrigo, desfaz-se também.
A paz goza-se nesse intervalo.
É o efeito da música, a rainha das subtilezas a borrifar-nos de prazer e plenitude.
Não se pode dizer ao certo quanto tempo dura este episódio, muito ou pouco, não se tem a noção. Quando se descerram os olhos da lua, ele já não está presente, evaporado o raio do malabarista.

Fecham-se as portas da carrinha, parte-se para novo episódio do realismo fantástico.

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