terça-feira, 19 de maio de 2015

JOÃO



Uma noite fria e escura, tão escura que nem acreditamos nela como noite. Em condições normais as noites têm as luzes das estrelas acesas, penduradas na teia de palco do céu, mesmo que encobertas por mantos de nuvens, esta não está posta assim.

Sob os auspícios desconfortáveis desse epifenómeno, debaixo de um viaduto da cidade, as paredes de betão estão forradas por azulejos com desenhos de medusas, em azul. Na rua que cruza essa ponte suspensa, uma marisqueira conhecida está banhada de luz e gente, e talvez por isso, por ser reconhecida, do lado de cá os carros com assinatura esperam que os ocupantes os venham buscar depois de refeições que não são baratas. Regressam mais tarde ou mais cedo, animados pela qualidade dos vinhos.

O João toma pouco conta dos carros. O que faz ali, nesse sítio, é estar estacionado como os carros. Não se dá por ele, não se vai dar falta dele.

Mendiga euros no enquadramento das medusas, em que nunca reparou. É um homem falho de história, há homens assim, que se dão ao luxo – ou miséria – de viver a vida sem história. Terão vindo ao mundo nos intervalos do tempo, em que não acontece nada de relevante para contar, num tempo vácuo, a cumprir planificações de leis desconhecidas, como figurantes de circunstância, só isso, que é nada.

É um homem revoltado, órfão de abraços. Tem uma conversa circular, violenta. A sua não conversa não culpa os seres ubíquos – quase sempre ausentes noutros afazeres - culpa-nos a nós: por não lhe termos dado atenção.

É essa a sua reivindicação: atenção. Ele deixou escapar esse cuidado dos outros quando desistiu, o que aconteceu há tanto tempo quanto a sua biografia, que jaz em branco albino num livro por escrever, e agora queixa-se do pecado do descuido.

Desinteressou-se das cores, dos cheiros, de sons agradáveis, do entrelaçar da sua mão com uma outra, a pedir prazeres. E quando isso lhe aconteceu - o desapego - não se sabe se devido a um grande sofrimento interior, ou um esmorecimento geral, faleceu violentamente.

Faleceu continuando vivo, no cumprimento de um calendário absurdo e cruel, se bem que o tenta encurtar.

Mas a vida é como é, e mesmo mortiça, fina-se por ordem superior, em condições que não se escolhem: até ordem contrária, mantêm-se a desgosto como desguardador de carros e de si mesmo.

Que efeito faz uma parede forrada de medusas azuis que ninguém vê, a sustentar um viaduto? Teve a sua glória no dia da inauguração e ficou-se por aí. Os artistas, os fotógrafos e os homens dos discursos pomposos, viraram-lhe costas e nunca mais se lembraram da sua existência, que têm uma agenda preenchida de novas inaugurações para se fotografarem.

É possível que tenha sido feita a pensar no João, a dar-lhe vislumbres coloridos, enquanto arruma os carros e barafusta com o universo. Se não foi essa a finalidade, o viaduto poderia ter ficado nu e desconfortável, gasto desnecessário sem usufrutos.

É uma pena o João não achar cor nas cores, e a darmos opinião, deveria pelo menos ter manuscrito a sua assinatura no livro. É que a partir daí teria sido mais fácil escrever alguma coisa. Assim o que se pode pôr é nada, matéria insuficiente e escassa para contar a história de uma vida.


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