segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

CARTA



Ninguém que se considere escreve cartas. É difícil, consomem tempo, a usufruir-se noutras correrias que não levam a nada. Escrever cartas é piegas.

No intervalo da chegada de uma frase ao apeadeiro do seu fabricador e até ao apito de partida para a próxima, sentados na estação do entretanto, não resta outra ocupação ao operário senão pensar. Cansa, assusta e compromete. É uma actividade de risco mal remunerada.

Quando se escreve, não se pode apagar, o que é um embaraço. Tenta-se histericamente ocultar o que se escreveu não se querendo escrever, mas fica sempre a marca probatória para os mais atentos – e há sempre uns chatos de uns atentos mortos por apanhar uma fraqueza nossa.

Assim que escrita, a palavra esparrama-se no papel a apanhar sóis e bronzeados, e valendo pelo que diz, nas conjugações com a anterior e com a que se põe a seguir, marimba-se para as consequências de ter sido parida. Deixou de ser um problema seu.

Escrever é uma matéria muito trabalhosa porque obriga a cuidados na grafia – a escolha de uma caneta decente - para que fique bonita, vaidosa nas suas roupagens, não se vejam as imperfeições.

Quando se faz a coragem de escrever uma carta, e terminá-la, somos obrigados a levá-la de mão dada até ao correio - com mil cuidados – apor um destino no sobescrito, colar meticulosamente a cola da lombada e do selo, confirmar e sua inviolabilidade- levá-la confortável à porta da carruagem que a vai transportar.

No momento da despedida – o que nos custa aos dois esse momento! – olhamo-nos como patetas para a ranhura de um buraco negro, atafulhados já de saudades mútuas.
Voltamos a casa na mansa espera da volta do correio, aguardando a resposta que às vezes não tem. Ninguém escreve sem a inconfessada esperança de uma resposta.

Quem tem a coragem de escrever uma carta, é merecedor do recado.

Passam-se os dias nas suas coisas de dias,e nós nas coisas nossas, e por aí andamos até que quase esquecidos, ou com a angústia doseada, nos bate à porta o carteiro, apressado como todos os carteiros, mas grandes amantes de todas as cartas em geral.

Deposita-nos em mão uma recheada de uma missiva, afogueada, vinda de um périplo sabe-se lá de onde.
Se não voltasse a casa, era mau sinal.

Que grande excitação: de novidades, de aventuras, mesmo de respostas óbvias às coisas simples e banais como as perguntas ingenuas que sempre se fazem nas cartas. Tipo “como vai a vida?”

Fechada a porta de casa e despedido o carteiro, as mãos desajeitadas e quase brutas violam o envelope, a abrir caminho aos olhos ávidos dos segredos que se avizinham.
Ofegantes, despímo-la com as febres de um sexo carnal, irresistível e muito físico, no entanto mental, o mais sensual ou brutal dos actos de amor.

E lemos. E relemos, com o sabor a pouco do que ela relata, imaginando nas entrelinhas e nas pausas, querendo mais palavras a fazerem histórias que nos embalem, e sosseguem na inquietude de se querer mais, esta inquietude de dias que acabam e fogem das mãos.

Uma carta é um prazer que não se esgota, múltipla de novas leituras e deslumbramentos inauditos.

Se escrevêssemos cartas, o mundo andaria mais apaziguado, porque enquanto esperamos pela possibilidade de darmos  resposta, não somos capazes de matar, rombo fica o gume da faca, transformada num aparo que afaga a superfície aveludada da folha de um papel.

E aturdidos na responsabilidade de uma resposta urgente nesse tal apeadeiro onde estamos sentados, não temos sequer tempo para apostasias, estamos aí, sós e sentados esperando pela  chegada do comboio das oito, marinando para nos entretermos nas coisas que nos passam pela cabeça.

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