sexta-feira, 14 de novembro de 2014

TANGO DAS PALAVRAS



A arte da escrita estremece em terramotos quando abusada com imoderação.

Acelere-se aos limites do pedal: nos acertos, nos falsos desacertos das palavras, em frases estranhas, oblíquas, fora do tom.

Avive-se o colorido com vírgulas manhosas, descompostas, exclamações noutro contexto, pontos finais ao contornar esquinas, obstáculos inesperados que fazem tropeçar.

A escrita ganha o céu quando o homem a põe a secar ao sol, à chuva, aos vendavais, escorrendo-se dos pesos inúteis, no apoteótico esplendor da sua nudez primordial.

Assim como é!

Toda a tentativa de limar arestas e tapar buracos com massas baratas, alisa e limpa a sua superfície, mas também a impermeabiliza das chuvadas torrenciais de belo que curtem a sua pele para os doces usufrutos da alma.

Há textos, muito bem escritos que são qualquer coisa, mas não arte.

São diplomacias das canetas: educados e sensaborões.

Bons textos no entanto.

A beleza da escrita habita rostos cheios de rugas, lavrados por fenómenos climatéricos extremos. Rostos que são como são: sem plásticas.

Uma bela de uma escrita das palavras é tão simples e tão ingénua, que assusta escrever.


E há momentos em que se consegue, quando não se pensa nisso e saímos à rua com a maior das naturalidades.



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