quinta-feira, 20 de novembro de 2014

NOTAS DE INTERVENÇÃO





A falência do regime, que se arrasta vai para lustros que nem se contam todos, não se explica com justificações na dimensão do país, nos seus recursos, no minguar de gentes, na sua localização periférica.

Facilmente se desmontam estes obstáculos que dão jeito.

Sobre tamanhos e medidas, temos de tudo: grandes dimensões como a Rússia ou a Índia, que não descolam de uma  emergência falaciosa, ou uma Suíça e Holanda, que são exemplo de pequenez com grandes sucessos e riqueza - talvez também falaciosas.

Dos recursos, o que são os recursos? Hoje estão em alta nos mercados, amanhã outros são o ouro que se procura. E os recursos são materiais, imateriais, coisas ou ideias, e todos eles, separadamente ou em conjunto, podem ser valiosos.

O petróleo que tirou as tribos dos desertos arábicos e os pôs a construir prédios de olhar ao infinito e a conduzir rolls-Royce forrados a diamantes, quando acabar, dará lugar a outras energias e fará ricos quem as produz e vende.

 Ontem a agricultura e a pesca não eram necessárias porque vinha tudo da europa, mais barato, supostamente melhor e ainda se pagava para estar quietinho e não produzir nada. Hoje o que vem da europa é caro, e não nos faz falta nenhuma (austeridade, submarinos). Cresceu entretanto o coro das lamentações porque já não há barcos para ir à pesca e os campos andarem ao abandono.

Sobre as gentes, o que mais importa? Muitas, poucas, muitas servis e acríticas, poucas mexidas e conseguidas? Também neste caso temos cardápios por onde escolher. Há países onde são muitas e mexem, noutros são muitas e vegetam. Dos que têm poucas, estão igualmente disponíveis os dois sabores.

A periferia também é um argumento curioso. Se fossemos por natureza do “contra”, diríamos que sendo o planeta quase redondo, a ideia de periferia não faz muito sentido. E não querendo desconversar, também se encontram exemplos com a maior das naturalidades, de que estar numa ponta pode ser bom porque, não havendo mais terra firme para pisar, temos que nos atirar de cabeça para o desconhecido até encontrar outra terra. Luta-se contra a inércia.

Agora somos suburbanos mas no século XV, fomos a plataforma avançada do Ocidente para abrir os portões do mundo global.

A Noruega é dos países mais periféricos que se pode encontrar, no entanto é o que é. A Austrália flutua num oceano a perder de vista, mas é o que é! Até a Nova Zelândia é o que é e são os antípodas mais periféricos que temos.

Todas as justificações são boas, e se se escarafunchar bem encontram-se sempre argumentos consistentes nos versos e nos reversos, para uma boa argumentação e uma boa retórica, que é a arte da ”palheta”.

A falência do nosso regime e por consequência do nosso progresso, não está em nenhuma destas justificações esfarrapadas.

Está numa ideia tão simples que até faz esboçar um sorriso de incredulidade: Na educação.

Pois é! Pequenos ou grandes, muitos ou poucos, com espaço ou claustrofóbicos, com mais ou menos colheitas e peixes no mar, a nossa fragilidade está na educação, neste caso na falta dela.

E educação entenda-se como um conjunto de disciplinas fundamentais no currículo para a formação das pessoas.

A “revolução” civilizacional do nosso povo aconteceu facilitando-se o acesso a bens de consumo a crédito. Ter um mercedes para parecer, mas não ter maturidade crítica. A escolha fácil de uma viatura catita, foi a cenoura envenenada que a elite politica e financeira pendurou nas orelhas das pessoas.

E elas babaram-se, o que foi de conveniência para se governar a bel-prazer sem interferências dos votantes que ficaram distraídos a fazer contas para pagar as prestações e a gasolina nos passeios tristes de Domingo pelas marginais deste país.

Como é que um país tão ridiculamente pequeno e quase despovoado tem tanta gente ainda a viver no século XIX?

Porque nenhum líder teve a decência e a coragem de investir na educação cívica, na educação escolar, no desenvolvimento de competências não só académicas e teóricas, mas igualmente práticas e de utilidade pública, na criação do hábito desde pequenos na prática da acção social, em voluntariados e projectos comunitários, onde as crianças fossem enraizando em si e no seu crescimento, os conceitos da solidariedade, da entreajuda, do espírito de entrega (não piegas claro) e de serviço.

Instituiu-se a matemática e o inglês, a primeira mal ensinada (não é culpa dos professores) e o segundo como arma de arremesso na propaganda dos ministérios da educação; falou-se da importância das tecnologias, mas do seu ensino prematuro não há fumo; vendeu-se ad nauseum a ideia de que todos se tinham que licenciar, proliferaram “universidades” em cada esquina esconsa, e os meninos chegam a “doutores” sem saberem expressar-se correctamente em português, sem saberem entender o conteúdo e sentido de uma frase um pouco mais elaborada.

Falharam as políticas por questões técnicas, ou pela falta de qualidade dos seus técnicos?
No fundo nada disso interessa a quem governa. Porque são temas que estão no oposto do mundo da competitividade, do ser o primeiro, conseguir o melhor lugar, ser melhor que os outros, e estes são os modelos do mundo “moderno”.

É pela estatística que se aferem os indicadores da “evolução”.

 Nada disso interessa a quem governa porque ao desenvolver nos outros essas competências, estamos a contribuir para um crescimento mais harmonioso dos humanos. E um ser em harmonia e equilíbrio pensa pela sua própria cabeça, é senhor das suas opções e decisões, escolhe caminhos, e constrói as casas e as pontes à sua maneira.

E tudo isso é precisamente o que um político tipo - de regime - não quer nem nunca quis.

Porque isso seria uma afronta ao seu poder, discricionário e cego. Porque isso lhe tiraria o acesso a esse poder, já que indivíduos que pensam não elegem indivíduos assim. E mesmo que se enganassem e os elegessem, rapidamente os tirariam da cadeira, corrigido a imprecisão de uma escolha mal feita em quem faz da prática política um saco azul para benefício próprio e da sua corporação, não considerando os outros cidadãos na equação da existência e da realidade.

É pois na Educação em todas a suas dimensões que reside o grande segredo do progresso. E esta não é um recurso escasso, não fazem falta quilhas nem enxadas: é uma semente que se rega com facilidade e floresce em pouco tempo e de folha perene.

Portugal não é pequeno, tem imensos recursos, as pessoas são as que existem e podem dar muito mais, mas diga-se que também é verdade: temos tido muito pouco brio, respeito por nós próprios, alguma apatia e preguiça.

Demasiado queixume e indecisão nas escolhas do que verdadeiramente queremos para todos nós.


Seria interessante se reflectíssemos um pouco sobre isto.

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