quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Guerra



Não te sobressaltes, eu estou aqui, aninha-te na minha mão.

Os sons estridentes que se ouvem no exterior não nos estão a chamar para a festa. As luzes coloridas que se veem no céu da janela da nossa casa, não estão a anunciar calendários de romarias.

São sons maus e luzes feias, sons que violam os nossos ouvidos, luzes que cegam os nossos sentidos. Não nos deixam dormir, prenunciam uma guerra a bater à nossa porta.

Não atendas, pode ser que vão embora. Vamos fingir que não estamos em casa.

Apaga a luz, e finge.

Os tambores estão a assustar os animais. Oiço-os balir, coitados dos animais.

Imagino – mas não distingo os rostos - homens que fazem tremer o chão com os tacões das suas botas pretas infetas. Levam aos ombros estandartes de mau gosto, e caminham em uníssono para nos amedrontar e espetar os pálios aguçados nos locais das novas conquistas.

Imagino que à sua frente, outros homens a quem ninguém pediu opinião, disfarçando o choro para dentro, para não apoquentar as mulheres e as crianças, abandonem as suas casas.

Transportam nada nos ombros, rumo a nenhures, a uma terra sem mais exigências senão a possibilidade simples de viver.

Tenho em mim a vergonha dos homens do mundo, e a frustração de não ser capaz de os chamar à razão.

A ausência de um algo que seja – uma sensação, um esboçar de emoção, um esgar de sentimento - habita as suas mentes gélidas.

Não há sinais de vida humana nos labirintos vazios que preenchem os invólucros cranianos dos homens dos tacões negros.

Não consigo chegar à fala com os corações desses homens: couraçados pela musculatura desenvolvida nos ginásios do poder, em que treinam, frenéticos, obcecados, dia e noite, alucinados pelos efeitos de hormonas indesejáveis.

Passa-me agora pela cabeça, a correr desalmadamente, a ideia que somos a espécie mais evoluída do planeta mas não a mais sensata.

Evoluídos e bacocos! Arrepio-me.Tenho frio.
Estou agora numa cena diferente: vejo-nos a idealizar grandes obras, moldando essas abstrações em matéria – dizemos arte - para deleites e encantamentos de todos.

Mas ao lado dessas obras, junto a nós, iguais a nós, vejo homens a assassinar com a maior das crueldades, enterrando as adagas até ao punho, num gozo e num acto que nenhum animal pratica.

Tenho vergonha e medo. Muito medo!E frio.

Acordo sem saber onde estou. Levo tempo a orientar-me. Executo malabarismos patéticos com as mãos para voltar a ser senhor do escuro. Encontro o teu corpo quente.

Não te preocupes, dorme o teu sono repousado. Eu estou aqui.

 Acabei de ter um pesadelo.

Sem comentários:

Enviar um comentário