sexta-feira, 1 de agosto de 2014

No meu prédio estamos quase na falência, mas não arredamos pé




O meu vizinho navega em ideias e é um homem expedito.

Tudo começou quando um dia ele veio bater, porta a porta, disponibilizando as suas economias, caso tivéssemos alguma aflição: “logo pagaríamos, vizinhos são para as ocasiões, afinal estamos todos no mesmo prédio, prontos a estender uma mão amiga”.

Alguns, aflitos para poderem continuar a usufruir das casas dos segredos e das passarelas vermelhas,  e dos quatrocentos e vinte e cinco canais - todos bons - alinharam logo.

O vizinho de cima, que andava com problemas para pagar a mensalidade de um sistema de saúde simpático a que tinha aderido - por não ter médico de família - bateu-lhe à porta a pedir conselho, e ele, prontamente, e por ser homem de muitos contactos, encaminhou-o para uns amigos que lhe iam tratar convenientemente da saúde.

O do rés do chão direito, há trinta e três anos que não ia de férias. Tinha um sonho por realizar. “Não há problema, tenho uma pequena sociedade barata, em parceria com rapazes das obras, e dispomos de uma meia dúzia de bons apartamentos – quase mesmo hotéis – para onde o estimado vizinho vai de férias, agora mesmo, e logo se verá”.

O da cave – de aspecto sempre miserável, mas são os que mais enganam – perguntou-lhe se ele conhecia alguém na áfrica, que tinha lá família, e se podia enviar algumas patacas.

 O vizinho empreendedor respondeu que não só as enviava, como ainda haviam de chegar em maior quantidade do que as que tinham sido enviadas: aquele truque da multiplicação do dinheiro.

Com todo este relambório, eu que sou de poucas confianças e não me lembro de um almoço grátis, animei-me e fui bater-lhe à porta.

-       Como está senhor Insosso? Disse quase a medo.

-       Olha o meu amigo Robalo, prezo em vê-lo! (esta do prazer não me soou !)

-       Vinha pedir conselho.

-  Amigo Robalo, estou no mundo para ajudar! Em que posso ser útil?

-  Gostava que o meu filho fosse para a Universidade, mas não tenho capital  para as propinas.

-  Não pense mais nisso homem! O miúdo quer estudar o quê?

-  Era computadores.

-   Está bem. Vai estudar sistemas de segurança informática, e se for bom,     logo se lhe arranja um canto numa pequena empresa de uns conhecidos.

-   Deus o abençoe, senhor Insonso!

-   Homessa! Venha daí um abraço.

....

Na verdade vivemos todos anos de grande felicidade neste prédio, até ao dia em que a vizinha zarolha do 2º esquerdo, que apesar de zarolha, tinha um posto permanente de observação e controlo à janela da sua sala de estar, veio avisar-nos de que o Sr. Insonso andava a carregar a carrinha Ford Transit com os seus pertences.

Ficámos à coca, mas expectantes.

Passou-se algum tempo e nunca mais vimos o vizinho empreendedor (dos familiares já sabíamos que estavam para os lados de Álcacer onde têm umas hortas).

Ontem porém, tudo nas suas casas a jantar, e eis que o secretário da junta – rapaz que apreciamos muito pela educação e bom trato (eu não me queixo , sempre que nos cruzámos no café ele cedeu-me a sua chávena) – informa-nos que estamos todos convidados, em nome da boa vizinhança  a pagar em prestações suaves, as dívidas contraídas pelo nosso mecenas, que teve que se ausentar temporiamente por uma indisposição incómoda, mas há de voltar.

Afinal os vizinhos são para as ocasiões! Venha o bem, venha o mal, se o vizinho nos deu a mão, porque havemos agora de recusar um dedo? Mindinho que  seja!

O que vale é que a malta do prédio está muito organizada. Já no caso do senhor Santos, fizemos senhas para vender na quermesse, e ajuda-lo a sair dos apuros ingénuos em que se pôs de emprestar dinheiro a toda a gente com dez por cento de juros garantidos. À cabeça!

Terminamos agora  uma reunião de condóminos, e concordámos em dar cinquenta por cento dos nossos salários para ajudar o Insonso e também para que o presidente da junta garanta mais um mandato, ou dois ou três: os que lhe  faltem

Vamos deixar de ver programas de entretenimento televisivo; clínicas de luxo para tratar maleitas comezinhas como a cancaro, tcháu; férias de pernocas ao léu, façam-nas nas varandas; dinheiros para a família em áfrica, eles que plantem mandioca; e o meu filho na universidade, com trabalho garantido para o senhor Insonso, a defender os seus segredos informáticos, com contrato temporário a seiscentos euros por mês mais impostos,  que se dedique à pesca - o meu filho - coitado que é vegetariano!

 

 

 

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