quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Gosto muito das touradas





Dos moços de collants e jaquetas às flores, unidos a abraçarem o touro – alguns estão mesmo emocionados, encostam as suas cabeças e beijam-no.

Dos rapazes montados nas mulas quase tão espertas como os cavalos - aos pinotes e piruetas - eles com chapéus de plumas ao vento, e majestáticas camisas de seda com folhos brancos.

Dos paus com que eles brincam com os animais  a fingir que espetam, mas não, embrulhadas ( as canas) em papelotes coloridos e com finos arpões de borracha – a fazer de metal - na ponta.

Dos outros rapazes, igualmente de collants a sacudirem freneticamente uma espécie de tapete a atirar para o rosa, em frente do touro.

Das filarmónicas que tocam músicas que entram no ouvido, fáceis de trautear.

Do senhor da corneta, sempre de luvas (queimou as mãos quando entornou a panela de sopa de rabo de boi que estava a fazer) alvas, com uma gravata preta, apertada, em esforços de contenção das banhas do pescoço, ou do esforçado sopro no bocal da gaita.

E gosto especial e particularmente do sangue (há o sangue!) a jorrar da lombada do animal, sadio e muito, a apimentar em colorido vivo, a celebração da vida, da festa rija.

Vejo todos os toiros que aparecem na televisão de serviço público – e os toiros das outras também. Vejo-os eu e a minha Constança, de quatro anos (que ainda fecha os olhos, mas eu obrigo-a a ver) e o meu Salvador de sete, aficionados na tradição e nos valores da nossa cultura, que é essa a missão dos pais: transmitir humanidade aos filhos.

Gosto muito desse espectáculo, mas também gosto das lutas de cães, e não percebo porque a televisão do serviço público, não passa essa arte ancestral em horário nobre. Concordo que as fatiotas dos artistas não são tão exuberantes e o público que assiste das bancadas não atira propriamente flores para a arena, mas ainda assim tem o seu colorido.

E gosto das lutas de galos, dos homicídios em massa, das decapitações (que lindas que são as decapitações!).

E porque nenhum desses jogos tradicionais passam nos horários nobres (repito e insisto), a não ser em pequenos apontamentos de reportagem nos noticiários?

Estas tradições devem ser preservadas, porque elas são a nossa essência, a nossa marca. Sem tradições perdemos os valores que nos guiam e sem estes ficamos desnorteados, mais bestas e menos humanos.

Acho que devíamos fazer uma petição a favor dos pitbull na tv ( e aproveitando, das lutas de ursos acorrentados, descarnados das garras, contra uma matilha de cães raivosos).

Dou os “meus oito tostões” pelo folclore! Só uma boa luta na lama com raparigas desnudas, supera o meu prazer pelas touradas, e o meu Salvador acha o mesmo.
 A Constança, sai mais à mãe, acha-as sujas. Já não vive - aos quatro anos- sem a unha envernizada e a pele devidamente hidratada, com um bom creme de óleo de foca morta à traulitada (mas tem que ser à paulada, para serem apanhadas desprevenidas e não libertarem endorfinas, que deita cheiro na gordura e estraga os cremes).

Enfim lá chegará a sua hora da apreciar as coisas boas da vida, as soirées no Campo Pequeno, as arenas da Cova da Moura, as piscinas de lama da discoteca Babe, na Quinta da Marinha.

E nesses momentos de adulta recordar-se-á de seu velho pai, pensando: “o pai era o pilar, a fundação. Foi o pai que nos legou a cultura e os costumes antigos”.


O pai e a RTP, nos tempos em que  existia serviço público de televisão.


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