domingo, 22 de junho de 2014

Cartógrafo do desconhecido





Despertou cedo, foi passear.


Vestiu roupa simples e cómoda, calçou umas sapatilhas afeiçoadas aos pés, fechou a porta delicadamente para não incomodar os objectos que ainda dormiam.


Alisou-se uma passadeira vermelha. Pleno de si, O pé direito fez o primeiro gesto, desafiou o parceiro do lado.


Estava um tempo agradável, nem frio nem calor, ideal para grandes caminhadas. Ciciava uma aragem apenas detectável, os primeiros passos, comedidos e lentos, estimulados pela perspectiva de um excelente passeio, cedo se ficaram afoitos.


Assim foi andando. No fim da passadeira, apresentaram-se novas possibilidades, primeiras escolhas, inúmeras ramificações oferecidas, como árvore desenhada no chão, e ele confiante, aceitou.

Seguiu sem definição de rumos, deambulou inchado de inocência.


A companhia acolhedora do sol lampejante e os sons espontâneos da natureza, aligeiraram o seu pensamento.

Leve, deu passos mais longos, ganhou distâncias, afastou-se cada vez mais de casa.


A distração e a curiosidade, aumentaram consideravelmente o afastamento. Parou para beber água e viu que não reconhecia o lugar. Não se preocupou, era cedo ainda, sentiu-se forte, tinha todo o tempo para regressar.


Após o breve refrigério, pôs-se de novo a caminho, agora mais atento às opções. Escolheu um sendeiro simpático, pleno de sombras, cheiros doces, boa decisão. Embrenhou-se, fez grandes avanços.


Um percurso apresenta outro, este propõe um amigo, aparece a dúvida, alguma indecisão, foi ao sabor, por aí, não voltou uma única vez a trás.


Andou, andou, descansou quando teve que ser, chegou a encostar por breves momentos a cabeça no acolhimento de uma árvore amiga, encerrou momentaneamente os olhos e sonhou, absorveu o mais que pôde o ar puro dos bosques.


Não foi parco, aproveitou ao máximo a aventura.


Pequenas e grandes veredas sinuosas também apresentaram desafios inesperados: escolhos, pedras soltas, ramos caídos, depressões do terreno. Fez apelo ao seu corpo ginasticado para os ultrapassar. Foi bem sucedido.


Na maioria dos itinerários como que levitou, levado ao colo, deslizando por mantos de caruma fresca e fofa.


Nas conjunturas em que se sentiu menos encontrado sorriu e não hesitou, a algum lado iria dar, e mesmo que fosse a nenhum , sempre o ficaria a conhecer.


Saciou-se de novos compinchas. Encantou-se, desencantou-se. Voltou com uma mão bem cheia de cartões de visita no bolso.


Após tanta deambulação, já se acendiam as luzes no céu, quando deu conta que estava à porta de casa.


Nunca fez cálculos rigorosos, não traçou rotas, não antecipou roteiros, e não utilizou a bússola uma única vez.


Mesmo assim chegou.


Abriu ruidosamente a porta para se anunciar, descalçou as sapatilhas cúmplices da passeata e sentou-se confortavelmente no velho sofá verde de orelhas, companheiro de incontáveis cogitações.


Chegou muito cansado, mas o deleite de espairecer, as memórias de um dia bem passado, desfilando agora na sua cabeça, compensaram as bolhas nos pés.


Amanhã insiste, cartógrafo do desconhecido.



Junho 2014

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