terça-feira, 13 de maio de 2014

O olho de vidro da minha tia florinda





A minha tia tinha um olho de vidro e à noite afogava-o, maneira de dizer ,num copo de água em cima do psiché.

A água não era gaseificada, mas constituíam-se pequeníssimas e inúmeras bolhas à sua volta. A modos que um olho numa flute de champanhe.

Para quem está habituado a dentaduras a boiar, esta foi uma grande ideia da minha tia.

Sendo uma mulher com o sentido prático da vida, e como não se está a ver ninguém dormir com um fechado e outro aberto,  não tendo outros inquilinos, arrendou o aquário ao vítreo.

Foi o meu avô que lhe ofereceu o olho, mais para ganhar as graças da sogra e ficar oficializado o namoro com a minha avó, sua irmã , do que atenções à zarolha. Foi no entanto um gesto de simpatia.

Um dia já sem memória que a bicheza das campas  as comeram ao mesmo tempo que as carnes, chegou a casa delas com um embrulho de papel pardo na mão e disse alheadamente: toma, a ver se encaixa.

A minha tia desembrulhou-o na expectativa das testemunhas oculares  - a mãe Carolina e as filhas -  puxou brilho com uma naturalidade que parecia não fazer outra coisa que puxar  o lustro à vista, acompanhou-o até à nova habitação, vazada por um gato de maus humores e relaxou-se a olhar fixamente para a audiência, boquiaberta pelo novo cenário da rapariga.

Na realidade não ficou a ver melhor, mas parecia mais atenta.

O meu avó ganhou bastantes créditos,  era homem que em momentos de necessidade, poderia perfeitamente substituir peças em falta aos familiares mais chegados .

 Os corpos  vêm sempre necessitados de pequenas afinações. Deus cria-nos tanto tantos, que calham imperfeições aleatórias.

O Mário não substitui o Altíssimo, mas cumpria os deveres de bom cristão.

São estes pequenos e distraídos gestos que transformam as nossas histórias.

Não lhe tivesse baixado a ideia,  estratagema sedutor, e a minha tia não teria tido as vistas todas – apesar de uma ser a fingir -  ele não teria casado com a irmã, e por sua vez, que isto é um encadeamento sem fim, eu não estaria agora a recordar um olho de vidro que o meu avô comprou um dia numa loja ao Martim Moniz.

Jeitoso que era!

Se  minha tia foi sempre uma mulher amarga num coração enorme às avessas com o mundo, amaciou-se de vez e até ganhou coragem para pedir o Jacques em ajuntamento, que nisto de decisões grandes ou ligeiras, ela não pedia licença a terceiros.

O afrancesado que não fazia a mínima ideia que o era – aparte a estranheza do apelido -  descendente de um espermatozóide perdido nas invasões francesas, entregava botijas de gás  e obviamente não resistiu aos encantos da Florinda.

 Antes nem lhe via a cara – diga-se em verdade que preferia pousar os óculos noutras partes - e agora ela olhava-o tão penetrantemente  que desarmou o distribuidor de gás desprevenido, o que não é fácil visto que os distribuidores de gás nunca estão desprevenidos.

Para a Florinda foi. Quando uma mulher se põe bonita fica o mundo em alvoroço.

Em criança, quando a visitava - viviam numa Vila de Lisboa - fazia figas para que o olho ainda estivesse a descansar, e poder deliciar-me rodando o copo, observá-lo sobre todas as perspectivas, procurar sinais de vida apesar da fixidez que ele punha em mim.

E como a imaginação das crianças é ainda mais prodigiosa que a própria da Criação, que esta molda a matéria e a delas trabalha com energias muito mais subtis, via-me a descobrir-lhe  - no olho de vidro -um roteiro de pequenos vasos sanguíneos, desenhando curvas  e contracurvas. Cheguei até a jurar-me a pés juntos, que a íris se contraía quando a confrontava mais insistentemente.

Lembro-me bem desse olho, por onde andará agora?

Se por acaso - que os há valentes - vier de alguma forma à pele da terra e alguém que vá visitar um ente querido ao Alto de S.João der de caras com um olho muito aberto a olhá-lo persistentemente, vai apanhar um susto dos grandes.


É o olho da minha tia.

1 comentário:

  1. Gostei muito!Lembra a escrita e os temas da escrita e os escritores da América do Sul. Parabéns! Luísa Ramos de Carvalho

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