segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O patrão do Farrusco



- Anda Farrusco, vamos acordar as ovelhas.

O cão , enorme, abentesma naquela quase escuridão,  do tamanho de um homem bem medido, não se mexeu. Entreabriu o olho direito, o que estava mais próximo do dono e olhou-o desinteressantemente.

A modorra das cinzas ainda quentes, espalhadas na lareira – que faz as funções de fogão – meio mortiças, aqueciam sofrívelmente o casebre de pedra granítica.Ficar por ali o mais que pudesse, era intenção do animal.

Uma enxerga, que com muito boa vontade poderá imaginar-se cama, uma mesa, um par de cadeiras, um escano junto ao lugar do fogo e um pouco mais de nada, são os adereços de cena.

No piso de baixo, a loja, os animais recolhem à noite e em dias de invernia rija quando o manto de neve cobre a erva.  Em dias normais serigaitam , comandados pelo pastor  e pelo Farrusco, por serras e vales, pelos caminhos e pelas veredas,eficientes cortadores de relva.

Estas almas, habitantes quase espectrais numa aldeia sem mais gente ou bestas perdida nas geografias , flanam sem novidade nem monotonia: caminham somente.

Em entretantos do passeio, conversam entre si nos seus dizeres particulares. Há relatos de que se entendem. As ovelhas não se queixam, o Farrusco é cão de poucas confianças e o pastor fala para dentro, com personagens suficientes para entreter uma mão cheia de palração. 

Cumprem os ciclos da natureza, seres livres do tempo.

Instalada noite, os humanos e aparentados – o pastor e o farrusco-  aquietam cansaços com o olhar suspenso no jogo de luzes do crepitar da lenha. As bestas deixam-se quedas a ruminar na vacuidade : a sorte que lhes coube de não terem pensamentos, coisa por provar.

Espampara-se a porta do novo dia e o Ti Manel veste as calças por cima das ceroulas, que fazem a vez de pijama, salpica os olhos na àgua de uma bacia ao lado da cama, e  atiça o lume para aquecer a chicória, que ao café verdadeiro é de tempos a tempos, quando vai à feira na vila, para negociar a sua produção de  queijos amanteigados. Poucos, mas de se fazer vénia , pondo-se as papilas gustativas num frenesim quase histérico.

O Farrusco  toma o pequeno almoço - se assim se quiser chamar - com o patrão, porque este animal, é como se fosse homem: falta-lhe falar e fumar, já que de beber ponham-lhe à frente umas sopas de vinho e pão, que é um consolo vê-lo a comer. Sorve a chicória e partilha o pão besuntado com banha, para dar sabor e consistência ao conduto.

O Ti Manel atavia o alforge com um naco de pão barrado, uma bota de vinho tinto , um par de maçãs e, os dois – o cão ainda renitente - descem a soltar os animais,irrequietos dos apetites da fome.

 O dia  mal esboça uma ténue luminosidade na linha do horizonte, que da aldeia fantasma não se alcança, porque está cercada pela serra, e porque à frente desta outra há, e a seguir outra se segue , e assim o que se vê à frente ou atrás, nada mais são do que serras.

Horizonte é o longe, muito longe e o Ti Manel a essa lonjura nem em imaginação. A essa linha imaginária, não se chega com as pernas,  pelo que e apesar de andarilho, o pastor está impossibilitado por lei de chegar aos confins da linha do mundo. 

Outros melhor apetrechados de viaturas velozes, também não conseguem lá chegar. Quando se está quase, a linha escapa-se para mais longe, e assim sucessivamente, num jogo de apanhada em que nunca se apanha.

Relativamnte ao Farracusco não se sabe se tem pensamentos filosóficos ou poéticos. Pensa-se que sim,  porque a forma como por vezes olha para as ovelhas, dá a sensação de grande interioridade.

Sendo um cão competente, e este é dos melhores, guiar ovelhas é tarefa fácil. Ele junta, conduz, reconduz alguma tresmalhada, e ao homem cabe apoiar-se no cajado e congeminar histórias e falatório interior, para tricotar o tempo. Assim que levam todos uma santa vida, comer, dormir, passear. não há maior riqueza.

Se alguém lhe perguntasse- se alguém de humano houvesse caido de trambolhões serra abaixo e aterrando nos pés do homem - o que é que o Ti Manel tinha a dizer da beleza das folhas acobreadas que caiem das árvores ou das flores que renascem em mil cores, ou do verde  da erva dos campos que em viçosa, parece que entra pelos olhos adentro, ele simplesmente diria que não tinha nada a dizer sobre essas coisas. Porque isso não acrescenta nada à sua felicidade. Isso é a sua felicidade natural e simples, não a pensa.

É que em não conhecendo outro lugar, havendo a impossibilidade de uma comparação, o lugar onde se vive , não é bom nem mau, nem bonito nem feio, é o único. É o nosso lugar.

A grandiosidade das serranias é suficiente  para o Ti Manel, dorme sem insónias, porque de dia é para ter os olhos abertos e de noite tê-los fechados com as luzes da cabeça devidamente desligadas, para não incomodar o sono e poupar na energia dos pensamentos, que são bem vindos, quando à luz do sol se apoia no cajado.

Aberta a porta do curral, as ovelhas saiem aos atropelos por essa estreiteza, e espertas que são, seguem o caminho da direita. Seguem sempre esse caminho, e voltam sempre a casa pelo da esquerda, dêem as voltas que derem durante o dia. Convencimentos dos animais, que não se discutem.

Aquela hora o tráfego ovino entope a aldeia,  é o único momento stressante da jornada. Depois a tensão baixa, e suporta-se.

Nunca se altera a rotina nem há novos planos. Vai-se ao sabor do pé que puxa pelo outro pé, e do cheiro da erva fresca. Quando o estomago reclama, se chove, o Ti Manel encosta-se a uma árvore , intercala o pão com golos de vinho, e bota o olhar no nada. O cão, que na hora de trabalho não se distrai, vai espairecer, tem a mania que é um cão de caça. O pastor, por compaixão não lhe diz a verdade: com aquele peso e corpanzil, as lebres tomam-no por tonto, rabeiam-no e à noite nos covis contam aos filhotes  deliciados, como puseram o tonto do cão com a língua de fora, a esgotar-se como um louco à volta delas.

Se o tempo está simpático – adjectivo que no campo não tem sentido - o pastor deita-se e olha para o céu. Olhos escancarados, absorvedouros de cor, a cor com que depois forra as paredes da alma.

Não é inusual quando se deixa assim ficar de aspirador,que o farrusco cansado de ser parvo, armado em farejador, desperte o patrão com uma lambidela farta. Desperta-o e leva um pontapé, que umas vezes acerta e outras não, mas está-se em crer que o objectivo é mesmo não acertar.

A trupe volta a casa noite posta, agora sem  conversas, silenciosa, com vontade de descanso.

 Estaciona-se o gado, atiça-se novamente o fogo, O Manel descalça as botas malcheirosas que não faz diferença, não há ninguém nas redondezas para se queixar, o farrusco não se descalça porque anda sempre de pé feito, e começa a hora de fiar os linhos da memória, histórias que vêem à tona do cérebro, passadas no pente fino do silêncio. 

Recordações do passado, dos bailaricos na aldeia, das moças trigueiras e cheias, das festas e romarias, dos filhos, da sua ausência na Noruega – doutores que foram ao ganha pão - da mulher que partiu quando estava a dormir (parece que já estava preparada de véspera: morrer deitada, já esticada,para facilitar o trabalho às vizinhas,que foi só enfiar o vestido pela cabeça), lembrar com amargura a partida dos últimos habitantes.

Remói-se este albúm de fotogramas a sépia até que chega o sono. O farrusco leva vantagem  ressona desde que se instalou rente ao fogo.

-Mais um dia,e amanhã, se Deus Nosso Senhor quiser, continuo a olhar para o céu que ainda me falta azul para forrar uma das paredes.





Sem comentários:

Enviar um comentário