quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Testemunha

Estou numa torre, só pode ser uma torre. A altura desta torre é enorme, estou suspenso nela, sei que tenho vertigens mas sou atraído involuntariamente para uma janela recortada numa parede irregular. Está a acontecer comigo o fenómeno magnético de atracção dos ímanes. Plasmado numa janela. Não distingo nada com nitidez. A força que me atrai a esta possibilidade de janela, não me autoriza a mexer um único músculo. Desagradável.

Estou colado a uma janela porque pouco antes desse fenómeno involuntário ter acontecido, reparei num ponto de luz minúsculo na imensidão da parede vazia, onde um luar provável batia o pé às trevas da noite. E foi precisamente para esse ponto que fui sugado, só porque olhei para ele.

...

Olho e pouco vejo, mas continuo cheio de vertigens. Acho que flutuamos. Eu e a torre? Nem sequer sei se estou numa torre ou num barco desgovernado. O balanço está na cabeça ou vem de fora de mim?

...

Sinto que não estou sózinho.

Estou numa sala, mas a janela despareceu.

Quatro homens com barba farta e óculos importantes com aros de tartaruga, debruçam-se sobre um livro, no meio da mesa, no centro da sala. Cada um escreve palavras num caderno preto com uma espécie de plumas antigas onde se molha o aparo num tinteiro. Tenho a sensação de que escrevem coisas muito importantes.

Que estranho! Sinto que eles agora estão a encher uma mochila de uma grande responsabilidade. Vão pôr-me o saco às costas. Sou o transportador das palavras daquele livro, tenho de as entregar de porta em porta. O alforge é pesadíssimo mas não lhe sinto o peso.

Ainda não estou muito certo do que faço neste local, mas não me preocupo porque sinto-me naturalmente à vontade.

O ambiente é neutro, apesar das vertigens e eles não falarem comigo. Eles nem falam.

Agora que olhei mais atentamente, eles não têm lábios. Afinal o que eu pensava serem plumas antigas, são penas que lhes saiem dos dedos. O aparo é a unha do dedo indicador. De repente o conforto desapareceu. Isto está a ficar esquisito.

Tenho a sensação muito difícil de explicar a mim próprio, que estou aqui por uma razão particular aparentemente importante, mas tenho dúvidas!

...

Estou cheio de frio.

Estou deitado ao lado de uma bíblia. Uma bíblia do meu tamanho. É o livro que os barbudos estão a escrever. Sem respeito nenhum uns pelos outros, cada um escreve onde lhe apetece, até por cima do que os outros escreveram antes.

São os Sábios, é isso que eles são, nem se dão conta que eu estou estendido ao lado do livro dos livros.

Aproxima-se agora um homem com bom aspecto, com um indício de gravata a sobressair pela cor, da bata branca que traz vestida. Parece-me doctor.  Enfia-me um tubo na boca e insiste para que eu degluta um líquido vermelho escuro injectado à pressão por uma seringa de tamanho descomunal.

Faço o esforço de engolir, mas o sabor agro e ferruginoso interrompe a minha boa vontade.

Ele insiste, começa a chatear-me. Já não acho piada à gravata.

Sinto-me mal. O encosto forçado da minha orelha direita sobre a Bíblia, começou por causar dormência e agora transformou-se em dor. Dói-me o lóbulo da orelha!

Debato-me com toda a razão, mas ninguém me atende.

Os barbudos agora estão em cima de mim, escrevem palavras no meu rosto, o que dá comichão. O tubo já não é um tubo, transformou-se num sifão de uma sanita colada na boca que não me deixa respirar.

Vou asfixiar!



António José,Tozé em núcleo restricto, desperta em sobressalto, húmido de suores, com a respiração descoordenada, num escuro totalmente escuro . Está perdido e até perceber que está sentado no lado certo da sua própria cama, passa momentos de desnorte.

A mulher dorme profundamente enroscada na posição de decúbito lateral. Tem uma espécie de capacete na cabeça, com uns rolos metálicos que parecem uma central eléctrica, para não descompor o penteado. O relógio despertador emite uma luz verde exuberante – uma nave espacial pousada ao lado da almofada - dá horas a piscar, que é a sua função e mantém-se sossegado no local expectável: a mesa de cabeceira.

4 horas da madrugada.

Tozé teve um pesadelo. São cada vez mais frequentes. Todas as noites um sonho intrometido aninha-se sem se fazer convidado entre os lencóis e ocupa todo o espaço da cama. Pernas por cima dos inquilinos, empurrando, apodera-se do espaço com solavancos incómodos para mudar de posição. Ressona alarvemente

Agora que despertou, volta a marinar nos problemas da vida, que não são muitos: sempre teve a minúcia de se preparar para uma velhice sem sobressaltos. Para além dos prováveis - a próstata ou o cólon, lotaria nas mãos do sobrenatural – tudo está arrumado na prateleira certa, e se tudo continuar a correr como planeado, o resto da jornada será tranquila.

Tozé está reformado das finanças. Há trinta e cinco anos conheceu a Angélica . Ela estava com dificuldades em preencher os papéis do Imposto dos rendimentos. Na realidade não era assim tão difícil colocar os números que se pedia, mas para lá chegar, tinha um novelo de perguntas por responder que a deixavam baralhada.

Aqueles impressos tinham sido propositadamente inventados para confundir a cabeça dos contribuintes. Algum funcionário de Finanças anónimo e triste, de índole sadomasoquista, fez dos impressos que inventou, o seu grito de revolta e deu o seu contributo para a vida meio enjoada de quem se levanta de madrugada para ganhar lugar na bicha e conseguir  ser atendido na abertura de portas.

Com a ajuda do Tozé e o carimbo oficial nos impressos, tirou-se o passaporte para uma vida em Massamá – nos primeiros anos num discreto apartamento alugado, depois com o esforço dos remediados que poupam nos gastos, num empréstimo bancário a trinta anos tornaram-se proprietários - dois filhos feitos doutores e bem casados,com copo de agua e uma reforma simpática que sobra, para gozarem sem preocupação de mercearia o inverno da vida.

E é no inverno, quando faz mais frio, que os corpos se abafam de roupa e as almas, com frieiras, procuram mantas e cobertores.

O casal Antunes encontrou o seu porto de abrigo nas Testemunhas,

A religião de Cristo vivida na infância ficou-se pelo caminho, mas os últimos anos trouxeram à superfície a comichão da fé.

 A congregação tornou-se a sua família, assistem três vezes por semana às sessões do Salão do Reino. Apresentam-se de fato e gravata e vestidos discretos. Cheiro a limpo. Não há listas infindáveis de semi deuses para venerar e dar conta dos nomes, as velas não se usam, nem preces para decorar. Leituras, só leituras partilhadas. Estão todos ao mesmo nível e isso é uma benção tão difícil de encontrar nas outras agremiações, desde a tertúlia da sueca aos herdeiros do santo Graal.

Comentam em conjunto os Escritos, sem pastores nem cajados. Este rebanho é autonomo, sabe por onde caminha.

Pelas manhãs, todas, Angélica ajeita o nó da gravata pálida do marido e tem a preocupação de que a saia de tecido grosseiro não sobe a altura do joelho.

Comem torradas de pão integral acompanhadas com chá preto - linha branca - num silêncio concentrado, sentados na mesa da cozinha.

As bíblias são arrumadas em duas capas de pele sintética, das que se põem debaixo do braço. Levam ainda um stock de revistas “Sentinela” e ”Despertai”, com uma tiragem gráfica quinzenal de 50 milhões de exemplares por esse mundo fora.

Angélica dá os últimos retoques de alinhamento na colcha de renda que fez no ano passado e que cobre a cama do casal: “sabemos sempre como saímos de casa, mas nunca como voltamos”.

Reina neste apartamento suburbano um silêncio divino.

 Sai-se ao rodar da chave.

7h30. Boa hora para evangelizar.

 Estacionam os corpos na entrada principal na estação de comboios da linha de Sintra.

Gente ensonada, com pouca vontade de encarar o sentido de mais um dia, dirigem-se como autómatos para a plataforma nº2, onde param os comboios para o Oriente e o Rossio.

As portadas de acesso à plataforma abrem-se aos que têm passe válido. Outros aproveitam a nesga para escapulir ilegalmente. Outros, saltam por cima das portadas e resolvem o problema.


É assim a vida na periferia de alguma coisa.

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