sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Tertúlia das Letras





Quando se vai para velho, dorme-se menos e  já que mais tarde ou mais cedo vai ser uma eternidade seria sensato aproveitar a vigília.  Mas isto é um contrasenso já que quando se vai para velho, o tempo em si, custa uma eternidade a passar.

Os minutos levam uma eternidade a dar a volta à hora, muito mais que sessenta. 

Com a companhia da solidão cada um amanha-se como pode, a única e derradeira companheira que não fenece antes de nós. De braço dado, leva-nos até à última porta, solenemente revestida do seu papel de meretriz.

Maria da Dores, acordou numa grande excitação. Tem 73 anos, pelo que a excitação advém de uma ânsia especial por algo que vai acontecer, presumindo-se que com essa idade, não será uma questão hormonal.

Todas as primeiras quintas-feiras do mês, fins de tarde, reúne-se a tertúlia das letras. Grupo reduzido,  pessoas avançadas, faltam jovens.  

Maria da Dores dorme habitualmente  mal e toma depois de um  jantar frugal, resumido a uma sopa anémica,u ma dose apreciável de Xanax. A valeriana há muito tempo que não vai lá.

 Até que o comprimido faça permita um sono com efeitos saltitantes, agora durmo, agora parece que não, faz a contabilidade da vida, para ter a escrita  em dia.

Mesmo assim o efeito é retardado, adormece ao raiar da manhã, e fica achatada na cama como um linguado inerte, já que não é habitual ter compromissos inadiáveis a horas tão matutinas.

Por volta das onze da manhã consegue ouvir decentemente as noticias de um pequeno radio-relógio despertador com uma luz estridente com números que até com cataratas se veem. Está pousado na mesa de cabeceira , onde também se encontram estacionados um copo de agua, tapado por um pequeno pano de renda circular – arqueologias do passado-,  livros do momento e um candeeiro com um elaborado abajour de seda mesmo na fronteira do piroso, dependendo da perspectiva.

É friorenta e não tem quem a aqueça. Vai para a cama com  meias de feltro, e tirá-las para calçar os chinelos de quarto, que trouxe de um hotel  numas férias longínquas na Isla Cristina em Ayamonte, é o primeiro exercício da manhã.

Hoje a Maria das Dores desperta cheia de energia.

Um gato compõe a cena. As pessoas espirituais preferem os gatos.

Enquanto  agua do chá anda à procura do ponto de ebulição, põe um disco a rodar numa aparelhagem do seu tempo,. Qual foi o seu tempo?  Uma efeméride de plenitude arrumada na memória poeirenta de quem já viveu muitos anos. 

A aparelhagem é uma relíquia com valor de mercado nos sites de leilões, mas vai ficar ao critério dos filhos quando um dia vierem inventariar os móveis e dividirem-se entre si pelo que cada um mais deseja. Junta-se uma história e ninguém nos fica com ela, só lhes interessam os objectos.

Gosta dos românticos, pelo que se serve todos os dias de uma dose generosa de Chopin. 

Como o efeito do comprimido ainda se faz sentir, ainda momentaneamente zonza, fica-se por casa, desentretida nas pequenas lides do lar, sempre infindáveis.

Leu algures numa revista que os ingleses tinham mais prazer numa casa arrumada e a cheirar a limpo do que  na actividade sexual regular, o que a reconfortou bastante, apesar de já ter uma ideia distanciada sobre o assunto.

Uma pessoa que vive acompanhada de si mesma, poupa-se nos gestos e nos hábitos: tem seis cadeiras de palhinha, mas senta-se sempre na mesa. Repete igual princípio com os sofás, o lado certo da cama, o copo, o prato, a toalha de banho. Nesta fase da vida escolheu de uma vez por todas os objectos mais íntimos, e não perde nem mais um segundo a olhar para os outros. Constam do acervo museológico da inutilidade nada mais.

Depois de passar o pano do pó e pouco mais, no bric-a-brac  da vida, o dia chega a meio.  A tarde vai se alentejanar, a noite então, anda para trás.

Maria das Dores frequenta o mercado biológico porque tem dinheiro para isso e está convencida que os produtos orgânicos lhe garantem mais um par de anos .

Convencimento encorajador já que de si o tempo  custa tanto a passar , com os produtos biológicos vai custar na mesma, mas de uma forma muito mais saudável.

Prepara para ao almoço uma mistura de legumes, que em  sobrando, se repete  ao jantar,. Quanto à sopa alterna-se na ementa,dia sim outro não.

As carnes entopem as veias, pelo que foram banidas, desde que o Coronel morreu, esse sim um carnívoro de primeira. No entanto, há dias em que a recordação de um de belo um cozido à portuguesa, desperta alguma palpitação.

Duas ou três vezes por ano permite-se ao desvario de uma dose de  cabrito assado com arroz de miudezas e grelos,  depois das caminhadas com as amigas, na serra de Sintra.

Nesta quinta-feira, o grupo vai assistir a um painel de convidados especiais que vêem falar sobre os escritores malditos, e sendo um tema estimulante, fica esclarecida a excitação  da Maria.

Estudou aturadamente o assunto, e preparou-se : a designação nasce com os românticos franceses, Paul Verlaine, como título de artigos publicados no Boletim Lutèce, para nomear o seu amante Rimbaud, a quem chegou a dar um tiro, onde nos leva o amor e a loucura.  

A partir daí foi um ver se te avias a nomear de maldito tudo quanto escreve, pinta ou faz música.

Leva as notas e apontamentos, num caderno moleskine, no caso de fazerem falta.

A meio da tarde vai à Neide arranjar as unhas e dar um toque no cabelo. Desta vez sai laranja, que é verão e este ano está na moda.

Às sete horas em ponto, entra na livraria no Chiado e escolhe um lugar na primeira fila.

Os horários nunca são cumpridos, não importa, deixa tempo a que os seus olhos procurem as amigas retardadas e se troquem comentários de cisrunstância.

Do painel do dia consta uma jornalista com cara séria,de se dar ao respeito, que atira perguntas como isco aos peixes. 

Três peroradores aconchegam-se com prurido em sofás de orelhas antigos - relíquias perdidas no armazém da livraria,  recuperados para a função. Uma Crítica literária, um Sociólogo e o Filho de um escritor maldito, entretanto falecido, compõem o ramalhete.

A Crítica , mordaz e ácida, enumera de uma lista do  Ipad  poisado no colo , os vícios dos malditos com as drogas, o alcool e os excessos na vida. E fá-lo com uma expressão  rubicunda, não seja a vermelhidão prenúncio de apoplexia eminente.

O grupo da Maria das Dores, entrado em anos mais muito energético, vai acenando com a cabeça e validando numa frenética sem contenções, as valiosas informações da crítica. 

Sim senhor, o Bukowsky era alcoólico. Está certo, o mesmo vício para o Hemingway.

 Senhor que se segue…

Cocainómanos, heroínomanos, os mistos, e sempre que a crítica enuncia um  nome do panteão, o coro exprime-se em sururu numa surdina intelectual, corroborando o elevado conhecimento e excelso coturno da mestra.

O sociológo escreveu um livro sobre o tema, e fala de cátedra, o que o reconforta bastante, já que só ouve a sua própria voz.Tendo conhecido em vida o pai do filho que se sentava à sua esquerda, era o único na sala que, se saiba, que tinha convivido directamente com essa espécie, o que lhe deu ascendente na audiência.

Quando algum dos companheiros ensaia uma opinião, ele interrompe e leva-os ao tapete. Exprime-se mesmo bem.

O filho do maldito está quase sempre calado e aceita, nem sabe porque o convidaram: ser-se filho não habilita a nada.

 A Crítica , porque tem muita prática nestas tertúlias e sentindo a audiência em suspenso,  ainda presumiu de o ofuscar- o do livro - mas o raio do académico é irredutível e sendo assim ela numa última estratégia, opta pelo beicinho e amua.

A audiência está a gostar, ninguém interioriza discursos de olhos fechados .

A moderadora pergunta ao filho que significado teve para ele ter sido  filho de um artista maldito. Boa pergunta, esta de se ser filho dos pais que saiam nos bingos do céus.

Ele,  criado despudoradamente na omissão de pai,  referiu educadamente não ter sido  agradável ser agredido com uma faca pelo progenitor, independentemente da sua genialidade enquanto artista. 

A conversa ficou por aí.

Acabou a sessão e ficou por dizer que a maldição do artista, de todos, é que a obra imaginada é sempre maior que a possibilidade da sua criação. Por isso somos seres mancos, incapazes da perfeição: é a inquietação suprema do homem. Mas isto são outras reflexões.

As pessoas vão saindo e já se arrumam as cadeiras, quando a Maria se aproxima do grupo reduzido dos discursantes que são massajados nos egos pela sua corte de seguidores. Não vai perder uma oportunidade para redimir-se de argumentos com esta gente da cultura.

O dia fez-se longo, já não há romenos nas esquinas a pedir dinheiro, os transeuntes  escasseiam, caminha-se agora tranquilamente.

Chega a casa por volta das nove. Toma o comprimido. Aquece as sobras  no micro-ondas  e estende-se no sofá, para ver a novela da noite.

É o seu momento do dia, de repouso entenda-se.

Com as pernas esticadas sobre duas almofadas com flores estampadas  vermelho vivo espera que a circulação sanguínea normalize e lhe devolva  as pernas . Dormita.

Acorda ao som das televendas e arrasta-se para a cama. Recomeço do lento pingar dos minutos que consomem uma noite.

Amanhã não há tertúlia, o que vou fazer?

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